O problema de escrever personagens LGBT!

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Verdade seja dita, pessoas héteros tem dificuldade, e mais do que isso, tem medo, em escrever personagens lgbt. Se na vida real, eles estão por aí (estima-se que 8 a 10% da população se enquadra na sigla lgbt), nos romances, filmes, séries ou eles não existem ou são 1 único personagem sem importância para a trama. Não há exatamente uma coragem em fazer uma série ou filme normal com um protagonista lgbt, já que todos se sentem mais seguros em colocá-los como secundários ou terciários, não assustando a audiência.
Como eu leio e assisto bastante, dá pra perceber tudo isso. Hoje em dia, dizem que é complicado não colocá-los em uma história, pois se eles existem na vida real, por que não incluí-los na ficção também? Antes, ninguém (pelo menos heterossexuais) ligava pra isso, mas como antigamente lgbt nem era considerado gente, não é como se fosse legal querer voltar atrás. O problema é que quando o escritor se vê fora de sua zona de conforto, ele pira.
Por isso, vou mostrar aqui como se criar um bom personagem lgbt, começando, claro, pelos piores jeitos de se o fazer, e que, infelizmente, são os jeitos que os escritores mais adoram.  
1)  “Eu sou muito diversidade!!!”.
O conceito de “Token” é um autor criar um único personagem gay e utilizar-se dele para ser pró-diversidade diante de seu público. Era comum em novelas aqui mesmo do Brasil, quando só tinham coragem de permitir um personagem gay, sem importância para a trama e carregado de estereótipos. O tokenismo, no entanto, também pode surgir de outra maneira: revelar que se trata se um personagem lgbt fora da obra original ou das telas.
Isso ocorreu com JK Rowling e Dumbledore. Após vinte anos e sete livros, ela revelou que ele era homossexual, sem que nada tivesse sido insinuado nos romances, tornando a autora conhecida como a favor de minorias, mesmo que nada em suas obras indique a participação real delas. Podemos notar algo semelhante com a Marvel no tratamento de Loki, já que ele é canonicamente “bissexual” (mesmo que o termo correto seria omnissexual, já que, convenhamos, se trata de um alienígena), mas suas preferências homoafetivas nunca são destacadas.
Você não é obrigado a esfregar na cara do seu leitor que se trata de um personagem gay. Veja bem, quando assisto uma série eu não preciso ver 1 hora de personagens se beijando ou transando sem parar para sacar a orientação deles. Em um filme de ação, o cara olha para a mulher de uma certa maneira, e você saca. Num filme adolescente, a menina olha para o rapaz mais popular da escola, e você saca. Dar uma história legal pro seu personagem e fazer o leitor sacar, como você faria caso ele fosse heterossexual, é o mais bacana. Tratar com naturalidade, não algo “excêntrico” ou “exótico” que você precise esconder e só falar nos bastidores, depois de tudo for lançado.

2) “Já disse que eles são gays???”
É o completo oposto do tokenismo, comum quando o protagonista é lgbt. Ocorre quando a história só é sobre o fato dele ser lgbt, e nada mais. Temos enredos basicamente sobre sair do armário, lidar com conflitos e relacionamentos que não raro, terminam tragicamente. Enquanto você tem milhares — bilhares — de histórias multi diversas protagonizadas por héteros, gays acabam ficando com nichos simples e sem muito atrativo. Não que eles não assistem de tudo, o que acontece é que deve ser bom ver ou ler algo que você possa se identificar um pouquinho de vez em quando, razão porque fanfic faz tanto sucesso nesse público.
Há assaltos, aventuras, magia, corridas, espaço, militares, sobrevivência, sobrenatural, tantos temas infinitos a serem explorados e o romance dramático parece ser o único para personagens lgbt. Personagens hétero tem romance, personagens gays também precisam ter romance, mas héteros também tem um manancial de outros gêneros. O curioso que pelo menos dentre histórias serializadas da TV, Hannibal e A Lenda de Korra foram os únicos programas protagonizados por lgbts cuja temática central não era sobre ser lgbt, ou seja, que era mainstream e tinham seus próprios gêneros (horror e fantasia, respectivamente).
Em resumo, é como criar qualquer outro personagem. Dê a eles uma história. Um objetivo. Se for romântico, desenvolva o casal, se não for, a ênfase em romances será esporádica, ou sequer existir. Talvez, escritores não acostumados a escrever personagens fora do padrão, se preocupem demais com coisas pequenas, quando o problema é simplesmente criar um bom enredo e uma pessoa para viver nele.
Pense que é a mesma coisa que quando você escreve heterossexuais, exceto que pode haver discriminação, dependendo da sua história (um casal de lésbicas vai sofrer preconceito no Brasil se morar em uma região de risco, e levar uma vida tranquila na Suécia, por exemplo). Tudo vai depender da história e gênero que você vai querer contar, pois a ficção gira em torno de enredo.
E se eu disse que é basicamente como escrever heterossexuais, é porque não há necessidade em se prender a estereótipos. Há gays masculinos e afeminados, há lésbicas femininas e masculinizadas. Todos tem seu próprio estilo, só não estão mais tão preocupados em obedecer tão cegamente a normas de gênero.

Para quem não está acostumado, faça um exercício mental e mude a sexualidade de algum personagem heterossexual seu. Mantenha tudo, mas faça ele se interessar em alguém do mesmo gênero. Como seria? O que aconteceria? A vida, os objetivos, sonhos, a personalidade dele se mantiveram? Eles acabariam sofrendo por conta disso? Perceba que isso pode mudar uma pessoa completamente e ainda assim, a "alma" dela será o que sempre fora, pois querendo ou não, sua sexualidade não irá ditar quem você é, os sofrimentos e experiências por quais você passa, sim.
Assim, se a essência e personalidade ficaram intactas, mesmo com outras visões de mundo, não há razão para temer criar um personagem lgbt. Porque no fim de tudo, são apenas pessoas.

Fonte da imagem: <https://goo.gl/kVmHZY>.

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