Um Coringa como você nunca viu | Batman: The Enemy Within e a série Telltale

junho 24, 2019


É inacreditável como só fui descobrir Batman Telltale series e The Enemy Within só esta semana, mesmo sendo uma série que nada mais nada menos nos dá as melhores versões de Bruce Wayne e Coringa dos últimos anos. Esqueça Batman v Superman ou Esquadrão Suicida, o melhor que a DC tem a oferecer para os fãs de Batman e o palhaço são os jogos da Telltale lançados em 2016. Você não curte jogos? Calma! Esta saga se aproxima muito mais de uma série ou animação cinematográfica que propriamente um game, visto a enorme quantidade de pessoas que conhece a série assistindo gameplays, que nada mais parecem do que filmes muito bem feitos (isto me lembrou o fenômeno que foi o jogo Injustice, que todos odiavam por causa da jogabilidade ruim, mas assistiam a gameplay completa como se fosse um filme, pois a história era boa demais).

Primeiro, The Enemy Within é na verdade a segunda temporada de Batman Telltale. Mas calma que não é preciso assistir a primeira para entender e a segunda. O importante a saber é que na 1º temporada Bruce Wayne acabou internado no Arkham Asylum após ser filmado espancando Cobblepot (o Pinguim), por conta de um veneno que o deixa neurologicamente instável. Enquanto está internado, Bruce conhece o misterioso e esquisito John Doe, um cara pálido de cabelos verdes que o segue por toda parte. Isso é apenas uma pequena parte do jogo, pois a maior parte se passa fora do Arkham Asylum e não tem nada a ver com John.

The Enemy Within é composta de cinco episódios longos escritos por Meghan Thornton, praticamente cinco filmes nos quais somos apresentados a uma mudança radical na mitologia de Batman. Inicialmente, Bruce vai para uma missão enfrentar um milionário, mas acaba conhecendo o Charada (the Riddler), que lhe propõe um enigma, a chave para uma série de ataques terroristas. Em meio à luta contra o Riddler, Bruce se reencontra com John Doe, que teve alta de Arkham. John o pede para que ele faça parte do Pacto, uma espécie de grupo secreto chefiado pelo Charada, do qual John também faz parte. Logo, Bruce passa a ser infiltrado no Pacto com o objetivo de levar o grupo à prisão, mas em meio a isso lida com a amizade de John e a inevitável traição que terá de fazer.


Desde a primeira que você vê John Doe, é muito óbvio quem ele é, o Coringa (the Joker). O jogo molda sua narrativa de acordo com as escolhas do jogador, então, ser rude, agradável, dizer certas coisas para John acaba mudando o rumo da história. E com tantos anos sendo alimentados pelo Batman e Coringa tradicionais, é normal lá na primeira temporada, vermos John Doe e já fazermos julgamentos, afastá-lo e ser rude o quanto pudermos, afinal de contas, é o Coringa. Mas em The Enemy Within, percebemos uma coisa curiosa: John Doe não é o Coringa, ou ao menos, não ainda. Ele se tornar ou não o Coringa depende totalmente das decisões feitas pelo jogador, ou seja, depende das escolhas de Bruce Wayne. Se em Piada Mortal o acompanhamos tendo um dia ruim que o transformou em Coringa, em The Enemy Within acompanhamos o que poderia acontecer se ele passasse pelo "dia ruim" com alguém ao seu lado, por exemplo, um amigo.


A amizade de Bruce Wayne levá-lo ou não para longe do destino é uma das coisas mais interessantes no universo do morcego nesses últimos anos. Essa total liberdade de mexer com pedestais estabelecidos da mitologia deu a Telltale a reinvenção total de origens de personagens nos dá possibilidades novas e muito interessantes. A própria relação abusiva entre Harley e Coringa é mudada completamente. Aqui, Harley é a psicopata independente que manipula e abusa John, que se vê preso numa paixão problemática que o deixa a merce até mesmo de agressões de Harley. Uma faceta intrigante, que inclusive, torna Harley como uma personagem muito mais interessante, pois sem estar resumida a uma paixão doentia e violência doméstica, ela se torna uma mulher independente e livre; e com seus atos horrendos, torna-se uma vilã de fato, sem precisar recorrer ao seu passado como objeto do Coringa. Aqui, ela foi a primeira palhaça do crime, o que, a meu ver, a deixa num patamar superior às suas outras versões, que querendo ou não, foram enfraquecidas e mal escritas desde o começo. 


Outro ponto que vale a pena comentar é a composição do Charada. Aqui, ele foi o primeiro vilão mascarado de Gotham, existindo até mesmo antes de Batman. Fez seu reino de terror na juventude e depois de anos desparecido, volta para a cidade. Suas maquinações são cruéis; particularmente numa parte em que Bruce, John e Celina (Mulher-Gato) investigam um bunker pertencente ao Charada, vemos o quão inteligentes são seus enigmas e como são basicamente uma justificativa esperta para tortura. Os gestos teatrais se afastam do que poderia ser galhofa para complementar a crueldade do que ele diz e faz com suas maquinações genocidas (*essa versão do Charada me fez perguntar porque a Warner não o coloca como vilão principal em um filme solo do Batman no DCU).
Já é uma boa hora de você assistir. Infelizmente, as legendas se encontram em inglês.

Episódio 1
Episódio 2
Episódio 3
Episódio 4
Episódio 5

*O episódio 5 é bem curioso. Dependendo do que você escolher ao final do episódio 4, você terá um episódio 5 completamente diferente. Caso você (Bruce Wayne) mantenha sua amizade com John Doe, ele se torna um vigilante ao lado de Batman. Caso você (Bruce) não confie nele, ele se torna o vilão que todos nós conhecemos. Assim, há dois caminhos a seguir: O Vigilante ou O Vilão



O Final (Spoilers)

Alguns reclamam que não importa o que você faça no jogo, o final sempre é o mesmo, o que claramente não é bem verdade. Se John Doe se corrompe em todos os eventos, não importa as escolhas, mas elas traçam o caminho se ele poderá ser salvo ou não. Assim, temos dois finais. Em um deles, existe a redenção de John, o outro, não. No final da série, após a luta entre Bruce e Coringa se encerrar, John o pergunta se ele fora seu amigo de verdade; se Bruce responder que sim, a redenção de John se concretiza e ao final, Bruce o visita no Arkham, mas se Bruce responder que não, John se tornará de vez o Coringa, o vilão que todos conhecemos. 

Essa é uma das histórias que deveria ter repassada para quadrinhos e, quem sabe, para outras adaptações como filmes animados ou até séries (não vejo probabilidade de uma adaptação live action já que as bases da mitologia Batman não são seguidas.) De qualquer forma, esta é a versão mais interessante do relacionamento de Bruce e Coringa, pela base emocional inédita que a carrega. Se na mitologia original do Batman a obsessão doentia do Coringa por ele sempre o empurra em insanidade sanguinolenta, aqui isso se traduz em amizade genuína, que é a única coisa que faz John não se perder para sempre. 


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