Sapatos




Todas as noites eles aparecem, sem que ninguém tenha os colocado lá. É sempre assim: deito-me na cama, me cubro até o pescoço e espero o sono me atingir com a suavidade de costume. O sono me leva a planícies tranquilas, girassóis e aos meus tempos de escola; sempre sendo interrompidos quando acordo abruptamente.

A porta do quarto está entreaberta. Eu nunca a deixo entreaberta, antes de dormir, eu a fecho, pois tenho dificuldade de dormir com claridade, por mais mínima que seja. Mas é isso. A porta está entreaberta, a luz do corredor forma uma faixa de luz amarelada no chão do quarto e lá, na fresta da porta, enxergo os sapatos.

Parecem de camurça e são roxos, velhos, acho que as solas devem estar desgastadas. Eu não moro com ninguém. Não há qualquer pessoa que poderia ter aberto a porta e colocado os sapatos lá. Da primeira vez, entrei em pânico, tranquei-me no quarto e chamei a polícia. Eles riram, no entanto, mandaram dois agentes que vasculharam o apartamento e falaram com a proprietária do prédio.

Era "impossível que alguém tenha adentrado o apartamento", pois uma das regras para novos moradores era "trocar as fechaduras", assim, a proprietária não poderia ser responsabilizada em eventuais problemas. É verdade. Eu troquei as fechaduras e nunca dera as chaves a ninguém, elas sempre andavam escondidas em meus bolsos fechados a zíper, gostava de sentir seu pequeno peso e saber que estavam comigo.

Não havia invasão nenhuma.

"Tem sonambulismo?" perguntara um dos policiais.

Eu não tinha. 

Da segunda vez que acordei na mesma situação, meu coração disparou quase igual da primeira vez. Entretanto, somente acendi a luz, tranquei a porta e fiquei sentada na cama, meus olhos nunca deixando a fresta debaixo da porta.

Isso aconteceu repetidas vezes. Cama. Sono. Despertar. Porta aberta. Sapatos roxos. Estava exausta.

Não adianta trancar a porta do quarto antes de eu dormir; ela está sempre entreaberta quando acordo, os sapatos sempre lá. Não adianta jogá-los fora, eles sempre voltam na madrugada seguinte, no mesmíssimo lugar. Pela manhã, eles não estão mais à porta, não estão em lugar nenhum que eu tenha colocado, sumidos como que pelo ar.

Numa medida drástica, numa das noites, coloquei-os no carro e dirigi alguns quilômetros para abandoná-los no matagal, atirando-os pela janela. Na madrugada seguinte, eles estavam lá. Meus eternos visitantes.

Depois, taquei fogo. O cheiro horrível era insuportável, abri a porta da sacada e as janelas do quarto e cozinha para espantar; uma podridão que ardia meus olhos e enjoava meu estômago. Os sapatos se reduziram a dois amontoados de massa disformes, quase reduzidos a cinzas. Deixei-os na pia.

Claro que eles voltaram.

Ninguém entrava no apartamento durante à noite. Fiz testes com pedaços de papel que mudariam de posição com a entrada de uma pessoa, seriam imperceptíveis para todos. Nada. A porta de entrada, a porta da sacada e as janelas ficavam paradas durante a madrugada inteira.

Fui embora para a casa da minha melhor amiga e o marido dela. Não consegui dizer a verdade, não achava que diriam que eu estava louca, entretanto, temia que pensassem isso. Dormi no colchão da sala junto com minha amiga (havíamos ficado lá assistindo um filme canadense). As cobertas, o travesseiro, os lençóis, até mesmo a pele dela, tudo cheirava a flores perfumadas. Sentia-me bem, como não me sentia há muito tempo.

Estiquei a mão para tocar em seu ombro, mas algo, de repente, se deteve no lugar. A janela enluarada iluminava fracamente, então quando afastei a coberta, eu vi os sapatos no colchão, no espaço entre mim e minha amiga.

O meu grito acordou-a e o marido dela também. Eles acenderam as luzes, perguntaram e perguntaram mais um pouco. Contei a verdade, tudo, as lágrimas descendo pelo meu rosto, o pânico se instalando em cada fibra do meu ser; tentaram me acalmar, não deu certo. Insistiram para eu ficar com eles por mais dias, disseram que iriam buscar ajuda.

O dia seguinte se passou normalmente. Os dias são comuns, não há portas entreabertas ou feixes de luz. Era sexta-feira, então sábado iríamos aproveitar a folga e procurar um terreiro de Umbanda em busca de ajuda espiritual (e emergencial).

Naquela noite nós três ficamos no quarto de casal, eu e ela na cama e ele no colchão ao lado; tudo iria acabar sábado, então tentei me concentrar nisso e não na possibilidade dos sapatos voltarem e eu acordar com eles no colchão, roçando em mim como duas línguas secas e demoníacas.

Obviamente eu acordei no meio da noite. O relógio da cabeceira me dizia que eram 02h31min., a única luz que iluminava o quarto escuro, além do luar que sempre pintava as curvas da casa através das janelas de vidro.

Os sapatos não estavam em lugar nenhum.

Olhei para a figura tranquila da minha amiga e sentei-me, afastando um pouco as cobertas. Nada. O marido dela também parecia tranquilo no chão. Vasculhei cada canto do quarto com os olhos, à espera dos meus visitantes surgirem do nada, talvez em cima do guarda-roupa ou no cantinho embaixo da mesa de passar roupa. Mas nada.

O alívio se construiu em meu ser, fazendo-me ter a sensação de respirar ar puro pela primeira vez. E no fim das contas, a única coisa que precisei foi que acreditassem em mim.

Foi isso que eu pensei até colocar os pés no chão.

Eu não estava descalça.

Tentei tirá-los de imediato, meus dedos agarrando as laterais com violência e tentando tirá-los; eles não saiam. O maior pânico que senti na vida era tão grande que tinha certeza que morreria ali mesmo, sem ar e forrada de suor com as mãos para sempre congeladas no ato de tirar os malditos sapatos.

Machuquei a minha pele e tornozelos, me debati e acabei sem querer me jogando contra os objetos do quarto, meus amigos tentando me acalmar. Num último ato de desespero, corri até a cozinha e peguei uma faca para cortar os sapatos e tirá-los de uma vez por todas. Faria picadinho deles.

Infelizmente, minha amiga entendeu tudo errado e tirou a faca de mim. Ou, ao menos, tentou. Numa raiva extrema, ao tentar recuperar a faca, o objeto acabou enfiado na garganta da minha amiga. O marido dela veio em minha direção e ele também acabou ensanguentado no chão da cozinha. Nas próximas horas, fiz somente uma coisa: cortar os sapatos com a faca suja.

Horas mais tarde, nos primeiros raios de sol, eu estava livre. Meus pés descalços tocaram o chão frio e caminhei por entre meus amigos, desviando da bagunça e dos restos dos sapatos.

A polícia chegou não muito depois, talvez os vizinhos tenham espiado pela janela de vidro. Mas eu estava livre, então não importava.

"Eles me fizeram fazer isso." contei ao primeiro agente que apareceu, assim que os recebi à porta.

Os policiais colocaram minhas mãos nas costas e me algemaram. Tentei desviar os olhos dos corpos e me concentrei na geladeira de inox. Nela, vi o reflexo da cena macabra. Não dos corpos ou do sangue, mas do fato de que todos os policiais usavam sapatos roxos de camurça.









Sapatos Sapatos Reviewed by Alana Camp. on setembro 20, 2022 Rating: 5

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