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| Pexel - Darina Belonogova |
"Gata, tem mais coisa entre o céu e a terra do que vc imagina ;) "
Encarei a mensagem que piscou na minha barra de notificação, um sorriso dançando em meus lábios e decidindo ainda se mostrava-se ou não.
"Já ouvi isso por aí" Digitei de volta. "btw, quem usa esse tipo de emoji hj em dia? Coisa de velho, hein".
"Gosto de pensar que sou vintage" A resposta pipocou e não consegui mais conter o riso.
Esse era um carinha que eu estava conhecendo pela internet. Depois de um ano inteiro de um relacionamento fracassado com um moço 5 anos mais novo, conversar com alguém que usava Hamlet e Emoji na mesma mensagem era como receber uma brisa fresca em uma noite de verão.
"Qual seu signo msm?" Mandei, trocando totalmente de assunto, como eu sempre fazia: zapeando incansavelmente por diversos temas aparentemente sem ligação, mas que na minha cabeça se conectavam de alguma forma. Tipo, um cara tão ligado a literatura deve ser pisciano ou no máximo Sagitário. Meu palpite é Peixes.
"Uma doida da astrologia! eu devia ter perguntando antes! rsrs"
"Tarde demais" Respondi com um breve incômodo.
Meu ex dizia que eu era uma doida da astrologia e que a próxima vez que ele fosse se relacionar com alguém perguntaria se ela gosta de signos antes mesmo de perguntar o nome. "Vocês doidas que gostam de astrologia botam culpa no signo pra tudo..." ele dizia "...no signo e nos planetas. Nossa, nada a ver".
"Virgem, chuchu. mas só no signo"
"Certeza?" Devolvi só para provocar.
Ele não tinha nada de um virginiano comum, mas nunca se sabe. Talvez um ascendente? Aquela personalidade tinha que ser de alguém do elemento água. Mas deixa para lá, muito cedo para querer traçar um mapa astral. Não queria assustar ele e era só uma coisa que eu gostava e acreditava, como as pessoas acreditam em destino ou Deus. Podia ficar para depois. Estamos nos conversando a pouco mais de 1 mês e nem nos encontramos pessoalmente.
Ainda.
Na tela, os três pontinhos que indicavam que ele estava digitando uma resposta se moviam sem parar. E depois sumiam, como se ele tivesse desistido do que quer que ia escrever ou digitando um textão. Isso se repetiu algumas vezes, até que por fim a resposta veio, espirituosa como ele sempre era.
"desde que nasci"
"e aquele nosso encontro de hj?" Perguntei.
"oshi, tá de pé. vc vai ter coragem de vir no meu apê?? tô até faxinando tudo aqui"
"se tu tem coragem, tb tenho" Duvidar de uma ariana era mais efetivo do que tentar chantagem ou pedidos diretos. E eu sou uma ariana raiz, claro.
"combinado então. vou buscar minha irmãzinha na escola, de noite a gente se fala"
Cliquei na foto do perfil dele. Ele era bonito de um jeito nada óbvio. Bem diferente daqueles rostos padronizados com as famosas harmonizações faciais, ele tinha o rosto fino e comprido, sobrancelhas espessas e cabelos escuros com alguns fios brancos começando a aparecer. Mesmo com as edições óbvias na foto, como o filtro de foto antiga, dava para ver o brilho nos olhos negros, a cara séria de quem não tinha tempo para bobeiras e birrinhas.
Bem diferente do Vilela.
E pronto, quando o sobrenome se materializou na minha mente, todas as outras coisas vieram junto: seus olhos castanhos-esverdeados, seu cabelos dourados-escuros, aquela pele lisinha e perfeita que não sei como o pessoal rico fazia para sempre ter. A pele branca com as bochechas rosadas que fazia ele quase parecer uma menina, não fosse a barba cheia e sempre bem aparada. Apesar do rosto lindo trasmitir uma disputa entre traços pueris e adultos, na personalidade a criança interna ganhava de lavada. Era um moleque mimado que sinceramente não entendo como consegui namorar por tanto tempo. O que esperar de um cara que queria ser chamado pelo sobrenome, até pela namorada?
Tá, se eu fosse sincera, teria que admitir que ele era popular na faculdade, conhecido não só na nossa turma de Direito, como também por várias outras pessoas do Campus. Família importante, carro legal. E o sexo era bom também, nunca tive do que reclamar. Logo no começo ele me contou que tinha sonhado comigo antes de me conhecer e que no sonho uma voz revelava que eu era dele; o amor da vida dele. Amava como isso soava: eu era dele. Um futuro destinado, escrito nas estrelas e nos sonhos. Uma linha vermelha que me amarrava a ele, como nos romances que eu lia.
Contudo, longe dos olhares públicos e da cama, ele era manipulador, controlador. Detestava ser contrariado, tudo tinha que ser do jeito dele. E ele era tão bom com as palavras e em brincar com a minha percepção de realidade, que eu sempre terminava qualquer discussão me desculpando. Me sentindo burra, idiota, pequena, emputecida. Sim, eu explodia. Sim, eu falava um monte de merda e depois me arrependia, mas o sentimento era genuíno, poxa. Ele tinha que me ouvir também.
Foi uma relação conturbada, com idas e vindas, até que cansei de tudo e decidi terminar. Mandei uma mensagem para ele, bloqueei de todas as minhas redes sociais e todas as vezes que tentou falar comigo pessoalmente na faculdade, eu só dizia que não tinha mais nada a ser dito.
Depois de um tempo, ele desistiu. Seguiu em frente. Até começou a ser visto por aí com uma caloura.
Claro, eu também segui em frente. Conversei com outros carinhas, fui nas festas da faculdade, fiquei com outras pessoas e conheci o Camilo.
Camilo, que eu podia chamar pelo primeiro nome ou de amor, sem ser corrigida para "chamar pelo nome da família, por favor, valorizo a família". Camilo que já era formado, era mais velho e comprou um celular e aprendeu a mexer nele recentemente e logo conheceu uma princesa, que era eu. Camilo, com seu humor ácido, porém educado e responsável, que ajudava o pai com a irmãzinha caçula, filha do segundo casamento. O Camilo era Homem, com H maiúsculo. Mal podia esperar para conhecê-lo pessoalmente.
Mais tarde, naquele mesmo dia, tomei o famoso banho premium, usando o barbeador em todas as regiões importantes, hidratando cada centímetro da minha pele e deixando os cabelos longos soltos e úmidos de propósito.
Sim, Camilo, tenha ideias.
Passei uma maquiagem leve, no estilo "acordei assim" que demorava mais de uma hora inteira para ficar pronto. Um vestido leve amarelo-manteiga, sandálias brancas de amarrar. Uma jovem de 26 anos pronta para tudo com um cara onze anos mais velho. Onze, que sempre foi meu número favorito.
"estou a caminho, amor" Mandei assim que entrei no Uber. E é claro que a previsão da corrida era de 11 minutos. Um claro sinal; mais um.
"vou deixar a porta destrancada. vc vai amar o que preparei pra vc." A última mensagem veio seguida de duas fotos de visualização única.
Senti um calor familiar se deslocar do meu estômago para meu ventre, e o rosto esquentar um pouco enquanto previa o conteúdo das imagens.
A primeira, uma porta entreaberta, o ambiente desconhecido e iluminado por velas. A segunda, um chão salpicado de pétalas de rosa vermelha como gotas de sangue iluminadas pela luz amarela das chamas das velas, estas últimas ladeando o caminho no chão.
"Um romântico" Sussurrei para mim mesma enquanto apertava o celular contra o peito, como se abraçasse o próprio Camilo. A gente teria muito tempo para isso e muito mais.
Na entrada, o porteiro avisou que já tinham autorizado minha entrada e até me orientou como chegar no apartamento que ficava no terceiro andar.
Caminhei, nervosa e cheia de espectativas. Não me apressei muito ao subir as escadas, porque ali não tinha elevador e eu não queria chegar toda suada devido a esforço físico de subir aqueles lances. Teria motivos melhores para suar mais tarde.
A porta estava fechada, mas a maçaneta abriu-se sem esforço. A casa era simples, silenciosa, e tinha velas ladeando o caminho de pétalas através da sala pequena e indo para um corredor, terminado em uma porta encostada. Reparei nos sacos de papel sobre a mesa da sala com a logo do app de delivery mais famoso da cidade. Ele até mesmo comprara a janta para nós.
"Camilo?" Chamei e um assovio divertido e ritmado vinha da porta entreaberta para onde as rosas vermelhas me guiavam. Uma mão apareceu e acenou para mim, me hipnotizando e chamando antes de sumir para dentro do quarto novamente.
Meu coração vibrava alegre e impaciente, prevendo a felicidade futura e prazeres que aquela noite me traria.
Abri a porta e o primeiro estrondo ecoou alto e incompreensível aos meus ouvidos. Senti o calor úmido encharcando minha barriga antes que meu cérebro compreendesse a dor aguda. Antes que minha boca formasse qualquer som, vi o rosto do Vilela sorrindo e reconheci a ponta dura e morna que encostou em minha testa antes do segundo som retumbar.



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