A Cigarra

By Alana Campanha - julho 27, 2020


Jojo sabe como ser festa e eu soube disso a partir do momento em que o vi entrando na sala de reunião pela primeira vez. Cheio de sorrisos, a cada duas sentenças uma piada e lá estava ele, conquistando os outros docentes e cortando a diretora sem o menor receio de represarias para fazer alguma colocação fora de tom, mas que, incrivelmente, era recebida com sorrisos tão brilhantes quanto o dele. Os professores perdidos nos caderno de notas e canetas bic sem tampa, por um breve instante, ou pele menos, a todo breve instante em que Jojo abria a boca, sentiam-se leves, aquele formigamento de satisfação quando alguém fala algo agradável e engraçado, algo você nunca sentiria coragem de falar, mas que é bom ouvi-lo de outra pessoa. Jojo era essa pessoa.

Eu não gostei de Jojo.

A farra de se estranbelhar no filtro d’água e ao mesmo tempo fazer bagunça e as pessoas rirem, transformou a primeira reunião dele numa cena já leve sem receio de começos e boa apresentação, já que foi logo pegando o pano de chão sem o menor mal-humor e ainda dizendo sobre as outras escolas “pois deviam ter visto o pátio EMEF da Silveira”, arrancando alegria que só um acidente e depois humildade diante dele pode realizar. Por que fingiam gostar dele? Sua bolsa de carteiro e olhos brilhantes demais eram típicos de alguém que seria destruído pela própria esperança em pouco tempo. 

Já foi logo recomendando esportes e reformas na quadra de vôlei, que era só mata. “é necessário carta de recurso para a prefeitura e depois para o governo”, “pois eu ajudo, Dona Yacchin, na minha outra escola...” e de repente, ele já desenhava planos para um clube de vôlei depois das especificidades de conseguir o orçamento para a reforma, sem ninguém para dizer o óbvio “você ensina Arte!”. Eu não disse, me detive a observar. O encantamento dele não duraria nem três meses. 

Como previra, o amor à primeira vista dos professores só acontecera porque a reunião foi no fim do no letivo e nessa época, todo mundo tende a ser mais feliz. O pesar de estudar o caminho de cada estudante, cálculos de notas e revisão de desempenho some um pouco diante da aproximação das festas de fim de ano e descanso em janeiro. Quando fevereiro chegou, ninguém mais ligava para Jojo. A angústia de mais um dia e o desamparo combinavam com o céu cada vez menos azul e com a mata cada vez maior. A escola estava superlotada e o inverno parecia nem existir mais, o ar-condicionado quebrado nas salas dera seu lugar aos ventiladores que não suportava aliviar quarenta e cinco estudantes por sala. E Jojo seguia, a bolsa de carteiro cheia de pedras de seixo e latas de tinta para os alunos pintarem, os professores iam de cara cansada ao bater do sinal enquanto ele conversava com todos. Parecia viver num mundo paralelo.

Na sala dos professores, eu desembalava meus sanduíches de manteiga e mortadela de olhos grudados na pesquisa de Jojo; sentado numa das máquinas de tubo, a tela do Google piscava amarelada, Monte uma feira de artesanato para seus alunos, dizia o estúpido título. Não demorou muito para ele vir um dia e propor uma feira para a escola inteira participar, com cada professor contribuindo de acordo com a matéria. As sementes de girassóis iam crescer até a data da feira pela aula de biologia, os poemas e folhetins escritos até lá pela aula de português; cada canto da feira já parecia desenhado, alunos e famílias perambulando para lá e para cá para ver o ano todo refletido nas bancas o coração palpitando forte em dever cumprido, até a imagem se destruir que nem pintura na chuva: nenhum de nós o apoiou.

O céu estava cinza e sujo quando aconteceu. Ventava frio como se fosse inverno e não começo de novembro. “Tiraram arte”, Jojo foi logo dizendo. “Retiraram a disciplina”, repetia. Eu não disse nada porque não havia nada a se dizer. Os vestibulares batiam à porta, os alunos que se amontoavam nas salas sem carteira suficiente não seriam prejudicados. “Isso não vai acontecer” me disse, devia ter passado na lousa e mandado copiar, respondi, “a vida não é só isso”, e parecia falar mais do que só sobre cópia. Yacchin olhou para mim de cara feia, porém logo a careta fez-se triste, barro descendo a encosta, ao virar-se para Jojo, não havia simpatia, só fato acabado. “Não há nada a se fazer.”

Duas semanas depois o céu parecia ainda mais cinza, os poluentes ou chuva reprimida o que quer que seja ameaçando a terra, ventos ao nosso encalço. Ao abrir a porta, madeira marrom lustrosa, vejo Jojo. Suas batidas haviam se misturado aos galhos batendo minha janela. “Me ajude”, na sua mão uma prancheta de assinaturas, “tenho poucas”, diz sobre elas “nenhum dos outros quiseram ajudar, mas você pode.”, o brilho, aquele brilho de felicidade nos olhos havia partido, as palavras por sua assinatura e CPF tinham agonia incrustada que um podia achar que falava da morte do próprio, não só da arte. O contraste de minha porta marrom lustrada e da entrada cheia de calor avermelhado contra o aspecto cinzento dele e do resto da rua me faziam achar que ele vinha de um mundo nevado, ilusório, morto. Era claro para mim a separação, mas ele não via. Trabalhamos o ano todo enquanto você vivia num conto de fadas, “Isso não é verdade”, não há motivos para lhe ajudar, “elas merecem ser felizes”, afaste-se, “por favor”.

Quando fechei a porta, não ouvi mais o vento, os galhos ou Jojo. Ele perdera, sua figura pós-festa. O mundo real havia ganhado. Ao me virar, minha sala estava cinza, a janela aberta levava brisa para os objetos e móveis destruídos. Os livros que enfeitavam a estante, desfeitos em pó.

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