Chucky é o Motivo de você ter Medo de Bonecas

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Vamos falar do boneco assassino favorito de todos? Antes, preciso confessar: nunca havia visto nenhum desses filmes antes. Na minha infância, só de ver o pôster com o Chucky eu já ficava aterrorizada. Depois de ouvi-lo ser tão citado nos podcasts que eu acompanho e de repente vê-lo na página inicial da Netflix, resolvi dar uma chance. E que chance! Até para quem não assiste terror, recomendo demais esse thriller travestido de psicopatia e irreverência. Promete: Não irá se arrepender!

Comecei o Brinquedo Assassino 2 (Child’s Play 2), fui para o terceiro e depois para o primeiro. Você pode começar tranquilamente pelo 2, pois eles contextualizam para você não ficar perdido (e é uma pedida muito boa, pois na Netflix tem somente o 2 e o 3, então não tenha medo de começar pelo 2). Entretanto, aqui vou falar um pouco — jogar conversa fora — sobre o primeiro filme da franquia. [sem spoilers, claro, pois você precisa ver. Chucky, ao lado de Freddy Krueger, Jason, Michael Myers é um ícone extremamente popular e mesmo quem nunca tenha visto, consegue reconhecê-lo. Mesmo assim, eu recomendo que você assista, pois é um baita de um filme legal!]. 

Vamos lá?

Brinquedo Assassino (Child’s Play) 

O filme foi criado e escrito por Don Mancini. Segundo ele, a ideia surgiu de um caso ocorrido com uma família no começo do século XX, em que uma empregada doméstica, após ser demitida pelos patrões, vingou-se deles presenteando a criança da família com um boneco amaldiçoado. Os relatos dizem que fenômenos começaram a acontecer na casa. A criança era vista conversando com o boneco e que ele respondia de volta, até aparecia em lugares esquisitos, sem ter sido colocado lá por ninguém; além de vultos, barulhos relatados pelos vizinhos quando ninguém estava em casa e pesadelos. Anos depois, o boneco passou para outra família que começou a testemunhar os mesmos fenômenos.

No entanto, Mancini só utilizou a ideia do medo de bonecos para contar sua história. Mirando no suspense com pitadas de terror slasher (subgênero do terror centrado em um assassino psicopata que mata aleatoriamente). A diferença é que o psicopata assassino serial da vez (falando da época de 1988) é um boneco, o que não só trouxe um ar novo para o horror quanto mostrou a hilaridade que a própria película era consciente de carregar; afinal de contas, ser surpreendido e perseguido até a morte por boneco tão bonitinho, pode soar tão engraçado quanto inquietante. Aquela pulga atrás da orelha enquanto se assiste a hilaridade da situação. 

No filme, Charles Lee Ray é um serial killer conhecido como “estrangulador de lakeshore”, versado em magia negra (ou ao menos, aprendiz obscuro). Ao ser perseguido pela polícia numa noite e ter o seu cúmplice o abandonando, ele é baleado pela polícia e corre para uma loja de brinquedos. Quando percebe que está morrendo, ele jura vingança para seu assassino e cúmplice, e num ritual, transfere sua alma para um boneco.

Conhecemos também a família Barkley. Karen é a mãe de Andy e quer que seu filho feliz em seu aniversário. O problema é que Andy quer um Good Guy (boneco bonzinho ou cara legal, segundo diferentes traduções oficiais já dadas), mas o tal boneco é bastante caro (Karen é vendedora numa loja de joias e cria seu filho sozinha). Quando descobre que um vendedor ambulante está vendendo um pela metade do preço, ela consegue comprar e presentear o menino.

É aí que o inferno começa. 

Acompanhamos Charles “Chucky” em sua saga de enlouquecer a família Barkley, vingar-se daqueles que contribuíram para sua morte e, principalmente, encontrar um jeito de ser humano novamente, o que só vai acontecer se ele conseguir transferir sua alma para Andy. 

O filme é de 1988 e deu origem a todos os outros sobre bonecos que vieram desde então. É muito interessante como nos importamos com os personagens, diferente da maioria dos filmes do gênero. Logo no começo, vemos a relação familiar entre Karen e seu filho Andy, entre Meg e Karen, o policial Norris etc. As ocorrências estranhas envolvendo o boneco no apartamento são trabalhadas pouco a pouco; o boneco aparecendo do nada em certos lugares, passos pela casa, e claro, Andy alegando certas coisas que o boneco supostamente teria lhe dito. A desconfiança de sua mãe e da polícia é justificada, mas temos vontade de sacudi-los e gritar a verdade, o que se torna um sentimento ainda mais frustrante quando a própria Karen descobre a verdade sobre Chucky e a polícia a trata como maluca.

O ponto de desconfiança e assassinatos escalona de tal forma no terceiro ato que a ameaça de Chucky se volta totalmente à família Barkley e tememos pela sobrevivência dela. Temos aí que uma coisa que poucos filmes de terror conseguem: fazer com que você se importa minimamente com os personagens. Claro que para Child’s Play a missão é facilitada com Alex Vincent, que interpreta Andy, certamente a criança mais fofinha que a ficção teve o prazer de entregar. Sentimos tanto apreço e medo por ele quanto sua mãe Karen, a também excelente. Outra coisa é que o suspense por volta do boneco é fundado nos dois primeiros atos, o que faz o terceiro ato ser a resposta plausível (dentro da proposta) para o que a audiência quer, ou ao menos, se preparou durante todo o longa: a perseguição desenfreada de um boneco homicida.



Estou vendo vários vídeos sobre a franquia e em um deles, alguém disse mais ou menos assim: “Chucky é o único personagem da cultura pop que as pessoas tem medo desde o nascimento”, o que pode ou não ser verdade, mas o fato de todos nós termos o medo irreal especificamente de Chucky desde que nos lembramos do tempo mais remoto de nossa infância é real e acorda o receio natural que temos de bonecas. Talvez tenha algo a ver com o Uncanny Valley (o Vale da Estranheza), reação psicológica que temos ao olhar para um objeto ou coisa que tenta imitar um ser humano — bonecas, robôs, androides, esculturas etc. —, mas como só tenta e apesar de alguns se aproximarem demais, não são idênticos ou soam estranhos, acabamos os achando bizarros, esquisitos e os tememos. 

Ou talvez a ideia de vermos uma imitação pequena de um ser humano com o rosto de porcelana ou plástico com um sorriso eterno estampado no rosto de bebê já deixa calafrios. É muito comum, no mundo todo, relatos de bonecas amaldiçoadas, possuídas, que seja. Quem não acredita, não quer pagar pra ver. É só natural que tivemos tanto medo da ideia de um de nossos bonecos tentar nos assassinar, tal como o Chucky. Lembro-me quando o SBT passava comerciais dos filmes todo começo e fim de ano — foi no começo dos anos 2000, com DVDs caros e sem Netflix (fitas cassete já estavam ficando para trás), ver filmes que passavam na TV aberta era a única opção. E eu amava ver os comerciais de todos os filmes, era o único momento em que eu assistia algumas cenas de terror (elas me aterrorizavam e não poucas vezes eu tapava os olhos). Os comerciais de Chucky foram os que mais me marcaram.

Eu ficava completamente assustada. Desde então, qualquer filme que ameaçasse entregar um enredo envolta de uma boneca amaldiçoada/assassina eu já nem me dava ao trabalho de assistir. O tempo passou e agora estou procurando essas histórias que tive medo na infância pra poder ver, não que o pensamento de uma boneca sinistra me deixa (ou deixa qualquer um) tranquilíssima. Enquanto continuo na minha saga, espero ansiosamente pelo próximo filme do Chucky e — veja só, quem diria — pela série que será feita! Certamente, Don Mancini, o criador, sabe como manter uma franquia viva! 






Fonte (imagens): <http://wickedhorror.com/features/editorials/childs-play-actually-competent-modern-horror-franchise/>. <http://toofab.com/2012/10/26/childs-play-movie-trivia/>.

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