Carona




Meu companheiro de viagem está agitado, mas não de um jeito óbvio. Está perfeitamente sentado, as mãos no colo como uma criança comportada e postura excessivamente ereta. Entretanto, eu vejo, ora ou outra quando desvio o olhar da estrada por um mero segundo, vejo ele esfregando os dedos uns nos outros antes de fechá-los em punho. A visão de seus punhos apertados, com as costas das mãos e dedos forrados de tatuagem me causam certa estranheza, no sentido de que eu acho que devia ter medo, mas... o fato dele não ter baixado o capuz de sua blusa larga e estar olhando pela janela (cuja única paisagem é a noite escura) são elementos que deviam ser mais preocupantes que as tatuagens nas mãos ou no pescoço.

– O que você vai fazer em Salto do Porá? – pergunto tentando amenizar o clima, sem saber o que havia feito de errado.

Segundos de silêncio. E então...

– Vou resolver umas coisas... alguns negócios.

Não sou o homem mais interessante do planeta, talvez isso seja motivo o bastante dele se arrepender de ter aceitado minha oferta de carona.

– Você está bem?

De forma lenta, ele olha para mim, a primeira vez em uma hora, desde que ele entrara no carro. Seus olhos levemente oblíquos me veem com certa confusão, combinado com a pele morena, me pergunto se ele é descendente de pessoas nativas. Não vou perguntar porque também não gosto quando me perguntam. "Você é do Japão?", não, querido, minha família está aqui há umas quatro gerações, deve ser até mais brasileira do que a sua.

– Você acabou de sofrer um acidente e pergunta se eu estou bem!?

– Não foi um acidente. Não um de verdade, não aconteceu nada.

– Bateu a cabeça no volante, não bateu? Tava sangrando.

Ergo a mão na testa, ainda dolorida.

– Foi só um arranhão e já parou, foram só umas gotinhas.

Johnny me fita por uns segundos e, finalmente, como que percebendo só agora, baixa o capuz, revelando o cabelo escuro e liso, que se perdia dentro da blusa. As luzes azuis e vermelhas do painel iluminavam um pouco seu rosto angulado, exceto pelo bigode, seu rosto era limpo, barbeado, livre de imperfeições. Bem, exceto também pelo "X" desenhado na bochecha direita.

– Manchou sua camisa.

Tento me lembrar do que estávamos falando. Concentro-me na estrada, uma pista que parece não ter fim, os faróis brancos cortando as gotas de chuva, os para-brisas indo pra lá pra cá. Por um rápido segundo, dou uma olhada rápida na minha camisa de botões. É branca e listrada, tinha pegado numa loja de departamentos.

– Não é nada.

– Você pode ter tido uma concussão, devia ir prum hospital, tem certeza que tá bem dirigindo?

– Estou dirigindo faz uma hora, já.

– Tem razão – murmura, encarando a estrada com pessimismo – mas você estava tonto, melhorou? Talvez os sintomas piores só comecem agora.

– Está tudo bem – sorrio com encorajamento e ele sorri de volta como se não pudesse evitar, mesmo que não acreditasse em mim - eu não sinto nada e se alguma coisa piorar eu vou para a emergência, prometo. De qualquer forma, eu não desmaiei, não tive amnésia, então, lucro, não é?

– Também não tive amnésia quando foi comigo, tipo tive uma concussão, me bateram com um taco de beisebol, e quem caralhos joga beisebol, pelo amor de Deus!? – revira os olhos, indignado – não digo que entra no top dez piores experiências que já tive, mas vou te contar, chega perto. Uma semana horrível, lixo, terrível – então parece se lembrar onde está e olha para mim, a expressão perdendo a raiva e se suavizando – espero que não seja ruim para você.

– Eu não estou com uma concussão.

Levo minha mão para o rádio e aumento o volume que antes, não passava de um ruído de fundo. Fico passando pelas estações pra ver se pegava alguma coisa boa; rock dos anos 1980, pop dos anos 1970, R&B dos anos 2000.

– Olha pra estrada, Dani, vai matar nós dois.

Há humor, mas também reprimenda na voz. Grudo os olhos na pista.

– Desculpe.

Johnny começa a mexer no rádio, a cabeça balançando levemente com as batidas de uma música que havia acabado de ser lançada.

– Não se desculpe, se for pra morrer, que pelo menos não seja sozinho, certo?

– Que sombrio.

– Seria ruim pra você, mas não pra mim. Tomara que você sobreviva e tenha uma vida inteira pela frente.

Eu não sei mais se ele estava só brincando ou se a hipotética morte de nós, dois estranhos, fosse um pouco mais apreciada do que deveria.

– Vida anda difícil, então? – jogo verde, mas não sem fingir um bom-humor.

Um nervosismo começa a crepitar dentro do meu estômago.

– Nah – nega com uma careta e deu de ombros – tá a mesma coisa, na real já tive dias piores, esses estão até um tédio, vou te dizer – começa a tirar a blusa cinza de maneira contida para não me atrapalhar, os braços, como eu esperava, forrado com tatuagens e a pele que eu conseguia ver através da camisa sem mangas – mas eu não ia reclamar se me batessem de novo na cabeça com um taco de beisebol, podia até ter mais do que você e pegar uma amnésia.

Ele fecha o zíper da blusa e dobra com cuidado. Logo, coloca no banco de trás.

– Isso porque você não está nos dias ruins.

– Ah, Dani Dani, estou zoando com você – ele sorri, dando uma piscadela – Não, eu não quero que você capote o carro e nos mate esmagados ou estropiados na pista no meio dessa chuva. Teriam que tirar a gente desse pavimento com espátulas.

Faço uma careta, não quero nem imaginar a cena. Sangue e chuva. Sangue e carne.

– Mas e você? – pergunta, interessado – ajudando um sujeito que você nem conhece, eu poderia ser um assassino sociopata com o modus operandi de degolar todo mundo que me aceita dar carona.

Tento não respirar com nervosismo ou apertar as mãos no volante ou encarar a estrada chuvosa com medo e não despreocupação. Sim, preciso forjar despreocupação. Céus, Cecília estava certa, minha melhor amiga e ex-esposa estava certa, “você é muito ingênuo, Daniel Jimenez.” Sim, eu sou, mas para algumas coisas, todo mundo tem um pouco de ingenuidade, não é?

– Não foi muito esperto, não foi? – digo e percebo com certo terror, com tristeza pra lá de pronunciada.

– Não muito – admite sem graça – tem sorte de eu não ser um maluco, pelo menos não cem por cento.

Johnny se inclina para ver melhor os nomes das rádios no painel, ele vai girando a rodinha, mas o som é tão baixo comparado à poderosa chuva ao nosso redor que mal faz algum efeito.

– Você não respondeu a minha pergunta.

Ele se reposiciona no banco e suspira.

– Que pergunta?

– Se você está bem.

– Pra que isso importa… – murmura com irritação.

– Nada, é que-

– Ninguém geralmente me dá carona, na verdade eu nem tava esperando, não sei porque você ofereceu.... Acho que... não estava esperando que alguém fosse tão legal comigo, justo hoje

– Ué, eu disse, você me ajudou no acidente, quer dizer, no quase acidente. E consertou meu carro. Os ônibus pra sua cidade estão em greve, não ia passar um por, tipo, horas. Por que eu deixaria você ficar lá no meio do nada por quinze horas? Poderia ser assaltado ou coisa pior.

Ele não diz nada, abaixa a cabeça e, por fim, desliga o rádio, aumentando a escuridão dentro do carro.

– Depois vamos ter que parar em algum lugar – continuo – a não ser que queira passar as próximas horas só com batatinha e balas de framboesa. Ah, isso me lembra – levo a mão direita ao bolso e pego algumas balas e ofereço pra ele – quer? Juro que não estão envenenadas.

Infelizmente, acho que ele não está tão assustado com a minha piada como eu fiquei com a dele. Ou felizmente. Não acho que ele está no clima de piadas como parece. No pouco tempo em que o conheço, sei que não o conheço de verdade e desconfio que alguém o conheça de fato.

– Eu não tinha parado pra pensar nisso, Dani – ele desembala e põe a bala na boca. – é tão perigoso pra mim quanto é pra você, quem pode saber, você pode ser o tal do assassino sociopata que degola as pessoas que você dá carona.

Dou risada. Assassino só se for de reputações, no caso, a minha. Maldito divórcio.

– Se for fazer alguma coisa, faça rápido. – brinca – nossa, tá ficando frio de novo, acho que desliguei o aquecedor sem querer.

Johnny pega novamente a blusa.

– Johnny, se você quiser conversar, eu estou aqui. Eu sou um estranho, então não vou julgar você pelo que eu conheço da sua vida. Se quiser falar – dou de ombros – pode falar.

Ele para por momento, um mero segundo, e depois retorna ao trabalho de se enfiar na blusa. Até mesmo ergue o capuz e segura as laterais como que se protegendo.

– Eu menti pra você, Dani. – suspira, cansado, pelo canto do olho, vejo-o se curvar sobre si mesmo – estou sim em dias ruins, não… anos ruins, cacete, uma vida toda ruim. Poxa, eu fico mal por estar te tomando tempo, por você estar me dando carona, me ajudando, é tipo, é tudo à toa.

– À toa? Ahn – franzo o cenho e… um sentimento de angústia ameaça se formar na minha garganta – Johnny, o que vai fazer quando chegar em Salto do Porá?

Não há resposta.

– Johnny.

– Ignora tudo o que eu falei, ok? Desconsidera. Vamos fingir que eu não falei nada. Jesus, essa foi a pior conversa que eu tive em toda a minha vida.

– Johnny – me preocupo, me sinto mal, o que eu devo dizer?

Então ouço algo, um suspiro, não, um fungar. Ele está chorando. Um choro baixo, envergonhado, tentando ser silencioso. Encosto o carro na rodovia, o motor para e os sons da chuva e dele ressoam ainda mais. A lanterna interior do carro ilumina tudo sombriamente.

Eu não sei o que fazer, então deixo-o chorar, minha mão hesita a tocá-lo não querendo perturbá-lo. Não quero admitir, mas meu coração se quebra um pouco. Depois de uns minutos, desconcertantes minutos, ofereço papel higiênico e ele pega sem olhar para mim, enxuga um pouco das lágrimas e assoa. Abre a janela e joga o papel fora, o ar e chuva entram um pouco, aliviando o ar quente.

Johnny está tremendo e, quando se vira para mim, pego sua mão. Gelada. Segurou-a com as minhas duas para tentar aquecê-lo, ou talvez parar os tremores, ou confortá-lo, não sei; logo, estou segurando suas duas mãos. Ele não as tira.

Depois de um tempo, quando os tremores cessaram quase que completamente, seguro seus ombros, checando; seus olhos brilhantes e castanhos estão incertos, tímidos, o rosto riscado por lágrimas secas. Eu abaixo o seu capuz e, um pouco hesitante, tiro o cabelo do seu rosto, guardando uma mecha atrás de sua orelha.

– Vamos adiar essa viagem para Salto do Porá? – sugiro.

Ele desvia os olhos, encolhendo sobre si mesmo, então acrescento;

– Pode pelo menos pensar nisso?

Talvez seja alguma coisa na minha voz, não dá para saber, ele levanta a cabeça e me fita. Ergo as sobrancelhas e um pequeno sorriso se forma em seus lábios.

– Tá bom – diz.

Johnny, lentamente, pega a minha mão e beija-lhe as costas. Logo, endireita-se no banco e olha para a frente, como se esperasse que eu ligasse o carro e seguisse caminho, como se nada tivesse acontecido.

A luz interna se apaga quando o motor acorda e agradeço pela escuridão porque assim Johnny não vai ver o rubor no meu rosto.






Carona Carona Reviewed by Alana Camp. on agosto 10, 2022 Rating: 5

Um comentário:

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