A maldita voz passiva que culpabiliza as vítimas sem você perceber

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Estou nos Estados Unidos agora, então muitas notícias do Brasil não chegam até mim. No Brasil, eu não tinha o hábito de assistir TV, e aqui é o mesmo. Me mantinha atualizada lendo a página inicial do Hotmail - mas quando entro aqui, as notícias são americanas. Entretanto, no face acabei me deparando com o caso de Tatiane, e como encontrava algo a todo momento, resolvi pesquisar. Descobri então que se tratava de uma mulher que foi assassinada pelo marido.

Além do óbvio, o que me deixa p***íssima é ver como os webjornalistas usam e abusam da voz passiva. Sério, dá um Google aí e observa os resultados! Agora vou te convidar a lembrar-se das suas aulas de português. Primeiro, uma manchete para servir de exemplo: Câmeras flagram advogada que caiu do 4 andar sendo agredida pelo marido. (https://www.google.com/amp/s/www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2018/08/03/interna-brasil,699176/amp.html)

Hey, verbo, quem caiu? A advogada. Hey, verbo, quem està sendo agredida? A advogada. Mas e o marido?

Você pode argumentar que dá pra entender que a mulher foi morta, mas (nessa frase aqui também) ela está sendo a autora da ação. A mulher foi morta. A mulher foi agredida. Isso providencialmente omite  o verdadeiro autor da ação! Nós sabemos que ela não foi a responsável, mas nosso cérebro entende a frase de outro jeito.

Não sei se já falei pra vocês o motivo de eu ter desistido de jornalismo depois de um ano. Se já disse, falarei de novo aqui: as palavras têm o poder de mudar a sua percepção sobre um fato. Você pode escolher diversas palavras e jeitos para dizer a “mesma” coisa, mas sua escolha de palavras dita como elas serão recebidas pelo seu interlocutor. O jornalista sabe disso. Ele usa as palavras a favor do que a editora para a qual trabalha deseja.

Lembro da aula até hoje. O exemplo era sobre crimes contra crianças/jovens adolescentes. Podíamos pegar a mesma idade, uns 14 anos. Se ele foi morto e eu quero sensibilizar o público, dou nome, chamo de menino. A morte do menino Pedro. Mas, vejam só, se essa mesma pessoa foi morta em uma ação policial, podemos usar menor. Menor é morto em ação policial.

Consegue notar a diferença? Em um caso, você simpatiza com a vítima. No outro, você sente que sequer há uma. Isso é manipulação de massa.

Naquela aula, eu me senti muito mal. Como se estivesse fazendo tudo errado, me senti um lixo. Eu seria paga pra isso? Trabalharia para manipular as pessoas através das palavras?

Então decidi que aquilo não era pra mim.

Mas toda vez que vejo uma notícia assim, algo dentro de mim se revolta. Como pode alguém falar de algo tão grave quanto um homem cometendo um assassinato, colocando propositalmente a vítima como autora da ação?

Não sei, não sei.

O que eu sei é que o machismo está nos detalhes. Está na escolha de palavras também.

Nesse caso, adoraria que a manchete fosse “Homem é flagrado agredindo esposa em vídeo minutos antes de jogá-la do 4 andar”. Pronto, melhor. Agora temos o autor do crime como autor da ação na frase. Eu sinto o desconforto das palavras, sinto o peso do ato dele e isso me faz pensar sobre o que pode ter acontecido.

Por mais manchetes assim, como a minha manchete imaginária. Por mais pessoas que não se deixem ludibriar pela voz passiva. E por menos mortes, também. Essa última pode ser um sonho distante, mas vou arriscar: por justiça. Que casos assim sejam severamente punidos e não se repitam, para que não tenhamos mais Tatianes “sendo mortas” no Brasil - e no mundo.

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