Eu me esqueci de onde eu vim

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Em julho vai fazer um ano que estou morando nos Estados Unidos. Eu aprendi muitas coisas, mas também me esqueci de algumas coisas - e coisas importantes. Esqueci que sou pobre, por exemplo. É, acontece quando você consegue comprar o último iPhone trabalhando apenas um mês. Esqueci que a minha realidade no Brasil é totalmente diferente dessa realidade que estou vivendo aqui. Esqueci que moro em um bairro periférico da minha cidade, e que sou uma exceção. Esqueci que sou rodeada do tráfico, da violência policial, das crianças que passam fome e que só vão para a escola e tomam vacina para não perder o bolsa-família. Esqueci quantas dessas crianças são criadas por mães abandonadas pelos maridos/namorados, ou por avós ou outros parentes porque os pais, bom, morreram. Ou foram assassinados. 

Eu esqueci de quantas vezes me senti impotente trabalhando como agente comunitária de saúde (ASC), porque a ajuda que eu podia oferecer era limitada. Esqueci do menino de 12 anos, órfão de pai e mãe, criado pela avó, que reclamava que eu só sabia perguntar se ele estava indo para a escola - mas que gostava de mim, e tentava ir pra escola sempre. Esqueci que chorei no dia que ele disse “tia, eu não fui pra escola porque estava chovendo e eu não tinha guarda-chuva”. Eu esqueci da moça que veio me implorar ajuda pra largar as drogas porque ela tinha vendido a única caixa de leite que tinha em casa para comprar drogas. Ela teve que dar água com açúcar para seu bebê que estava com fome. Esqueci o olhar mais triste que eu já vi em toda a minha vida no olhar de um moço alcoólatra, HIV positivo, usuário de crack. 

Eu esqueci. 

Eu não sou nada; eu não sou ninguém. Eu sou uma menina que teve sorte de ter pais que achavam importante que eu estudasse. Sou uma menina que estudou a vida inteira em escola pública, que fez cursos técnicos porque eram de graça, que terminou a faculdade na qual entrou como bolsista - dei “sorte” de me interessar pela licenciatura, de querer ser professora. Sou alguém que tem computador porque meu pai fez empréstimo no banco pra comprar um, porque era importante saber mexer no computador. Sou uma menina que teve internet em casa pela primeira vez aos 18 anos porque comecei a trabalhar e pagar por isso. Na parte da família do meu pai, sou a única com nível superior de ensino, e tenho vários parentes que sequer concluíram o ensino médio. Eu. Sou. Uma. Exceção. 

Tenho esse espaço em que falo sobre coisas que considero relevantes, seja pelo entretenimento, seja pela arte, seja pelo caráter informativo e crítico. Eu tenho sorte, talvez? E quero levar isso para as outras pessoas. 

A minha mensagem de hoje é de que eu esqueci de tudo isso por um tempo. E como aprendizado, resolvi falar aqui sobre isso. Não se esqueça de onde você veio. Não se esqueça do lado feio da vida, do lado triste, do lado pobre. Não se esqueça das suas cicatrizes, não se esqueça dos seus privilégios. Se puder fazer diferença, faça diferença. Se você tocar uma vida, saiba que isso é muito, muito mesmo. Tem uma frase que amo muito que diz “seja a diferença que você quer ver no mundo”. Tinha me esquecido disso. 

Então, estou fazendo o meu melhor para ser essa diferença. E conto com cada um de vocês para fazer o mesmo. 

Vamos todos juntos construir um mundo melhor!

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4 comentários

  1. Marcos Vinícius14/05/2019 15:41

    Oh, belo texto. Acabei chegando nesse blog de uma maneira totalmente aleatória, mas gostei do que vi. Espero que você continue com o bom trabalho e com essa sentimentalidade, acho que faz bem. Boa sorte com tudo.

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    1. Oi! Muito obrigada pelo elogio e pelo comentário. Eu sempre sou muito sentimental e acabo colocando isso em tudo que faço. Super beijos!

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  2. Tha, eu já te disse o quão importante você é na minha vida, e depois desse post eu só reforcei esse sentimento. Eu tenho muito orgulho de você e de ser sua amiga, quando eu crescer, quero ser como você ♥️

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    1. Ah, muito obrigada <3 Você é uma linda e alguém que eu também amo demais!

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