Prisão

By Alana Campanha - junho 11, 2021

 


“Precisamos conversar.” Natasha havia dito e desligado logo em seguida. Mesmo pelo telefone, Álin já sabia que seria uma conversa séria. O silêncio da chamada encerrada lhe surgia como um prenúncio. Escorregou o celular de volta ao bolso, subitamente nervosa com palavras tão simples. Todas as conversas que haviam tido — até as discussões — desde o incidente, haviam sido leves, cuidadosas, como que escolhidas de propósito para se desviarem de assuntos perigosos que poderiam desmanchar a vida codependente das duas. 


O incidente as transformara numa pintura impressionista debaixo de um céu nublado, e qualquer movimento em falso ou palavra específica, poderia agitar as nuvens e a chuva destruiria a tinta fresca por completo. Desde que o DHPP encontrara Álin quase à beira da morte numa cabana, conseguia distinguir o barulho dos trovões à distância, sempre se aproximando, sempre chegando mais perto.


— Por que eu escolhi ajudar você? — murmurou para o vento, antes de terminar de subir a rua e chegar até o carro.


A chuva era violenta e gelada fora do carro, mas dentro dele era seco e quente. Esperava que o que quer que Natasha quisesse, não demorasse horas, mas se tratando dela, era melhor ficar prevenida. O motor acordou e logo, Álin percorreu o caminho familiar que levava até sua antiga casa em Rodopião. Horas ouvindo nada senão o barulho da chuva forte ou o rádio de vez em quando. Indie. Sertanejo.  Emocore. Chuva. 


Sempre pensou que se existisse um inferno, certamente seria feito de chuva.


Parou o carro mais ou menos um quilômetro antes, no acostamento da estrada e partiu pelo temporal. Tremia. Às vezes, era como se estivesse sempre debaixo da mesma chuva.


“Por que você fez isso comigo, Natasha?” 


Quando viu a casa à distância, acelerou o passo, trôpega pelas roupas encharcadas. No meio daquele tempo, a casa parecia abandonada. Olhava e só conseguia sentir o mau agouro. 


 A porta carcomida se abriu depois de alguns toques.


— Olá, Álin. — Natasha tinha um pequeno e satisfeito sorriso; não aparentava estar incomodada por Álin ter caminhado quase um quilômetro na chuva ou estar tremendo de frio — Entre. 


Natasha deu passagem e Álin entrou apressada. A porta foi fechada atrás dela. O mesmo cheiro de perfume cítrico, o mesmo estilo elegante e os cachos perfeitamente alinhados. Até usava o mesmo lenço branco e rendado ao redor do pescoço como se tivesse saído de uma novela vitoriana por Oscar Wilde.


— Espero que não se importe — disse Álin, mesmo sabendo que roupas molhadas no chão importavam e muito para a outra e não de um jeito positivo. 


— Está tudo bem, Álin — sua voz era eternamente composta — a casa é sua teoricamente. 


— Era — corrigiu, depois olhou em volta — Eu vou-


— Há toalhas no banheiro e uma muda de roupas do seu tamanho. Pode se trocar e se lavar, se preferir — a fitava de maneira esquisita, como se soubesse de um segredo — Leve o tempo que quiser. Estarei esperando.


Esperando. Uma eterna espera. Antes do incidente, segundos antes, o experimento na cabana era uma tentativa de corrigir isso. O esperar. Álin ainda não sabia se fora uma prisioneira ou a própria Natasha fora, mas molhar-se no chuveiro com o olhar ziguezagueante pensando em Natasha observando a porta e imaginando Álin era uma imagem familiar demais. E agora, estavam lá, espelhando o passado, não numa cabana, mas na casa que Álin desistiu. A casa abandonada às traças que o DHPP nem em sonho imaginaria que agora era o abrigo secreto de Natasha. 


Vestiu-se mecanicamente. Calça branca, camisa social branca. Havia até mesmo meias e sapatos, eles e as vestes com medidas corretas. Depois de anos, Álin não conseguia nem mesmo achar aquilo assustador. Natasha, a Chef maldita, naquele ponto, já devia saber seu tipo sanguíneo e as escolas que frequentara na primeira série. 


Saiu do banheiro ainda secando a cabeça com a toalha macia. As pontas das árvores arranhavam as janelas, sombras a distância.


— Você não devia ficar passeando em lojas. — comentou vendo o terno cor de caramelo de Natasha.


— Eu não fico passeando em lojas. Suprimentos são necessários e não é como se eu pudesse te esperar para trazê-los para mim. 


— Os suprimentos que você diz são os ternos ou os talheres de prata?


Natasha sorriu bem humorada com sua impertinência.


— Como eu disse, necessidades. 


Álin balançou a toalha no ar, e foi em direção à mesa, provavelmente sendo seguida pelo olhar da outra o tempo todo, como era de se esperar. Pendurou a toalha nas costas de uma cadeira e sentou-se nela logo em seguida, sentindo a maciez úmida atravessar a camisa. Estava especialmente disposta a desagradar Natasha por tê-la feito fazer aquela viagem maldita. Claro, havia certo orgulho em ser chamada ao invés de aparecer à porta sem uma desculpa justificável. Precisava de razões para ir vê-la sem que elas se resumissem no simples desejo de vê-la


O barulho do lado de fora não ajudava a abafar o silêncio. Infelizmente, significava que era ela quem teria de quebrá-lo.


— Então… Por que você chamou?


Natasha sentou-se à sua frente, observando-a. Álin se imaginou um animal exótico e de beleza excepcional num zoológico. 


— Eu apenas queria ver você.


Álin soltou uma risada ríspida, mexeu-se na cadeira. Talvez outras pessoas com comportamentos semelhantes tivessem seus nomes inseridos em suas listas de receitas, mas até onde podia dizer, Natasha sugeria estar ligeiramente divertida.


— Você não me chamou só por que queria me ver — pontuou.


— É isso que você acha?


— Disse que precisávamos conversar — tentou não ficar exasperada — Parecia importante.


— Aprecio todas as nossas conversas, Álin. Sempre. Uma fonte de inspiração excepcional, por duas vias — levantou-se e foi até os armários — Quer comer ou tomar alguma coisa?


Imaginou imediatamente pessoas que tratavam companheiros românticos com extrema delicadeza, para então terminar tudo. Queria dizer a si mesma que não havia conexões do tipo entre ela e Natasha, mas sabia o que as pessoas pensavam e o que havia feito. Sabia das manchetes. A Chef Natasha Nilsen e a detetive: cúmplice ou vítima? Álin, por que você ajudou Natasha Nielsen a escapar?”; porque não havia escolha a ser feita; porque não há qualquer outro fim além de ajudá-la; porque ela não pode tê-la chamado aqui para acabar com tudo.


— Não. — respondeu — Não quero comer nada, obrigada. 


— Tem certeza? — insistiu, não menos polida — Parece especialmente faminta hoje. 


Pelo tom, ponderou se Natasha não estava a um passo de amarrá-la na cadeira e alimentá-la à força. Ao menos, sabia que ela preferia a técnica da persuasão quando se tratava de comida. Não que isso apagasse a imagem de amarras de Álin.


— Tudo bem. — resignou-se — Se não for um incômodo.


— Você nunca é um incômodo, Álin. — e acrescentou a meia voz: — Geralmente. 


Álin não conseguiu evitar o esboço de um sorriso que morrera um segundo depois. A sua frente, uma louça de porcelana foi posta, no centro da mesa. Estava preenchida por pequeninos sanduíches que mais pareciam bolachas artísticas. Triângulos pardos com recheios misteriosos. Ou não tão misteriosos assim. 


— Quantas pessoas você matou para fazer esse prato? — perguntou, mais despreocupadamente do que julgava ser saudável. 


— Se é de seu interesse, é apenas peixe — fitou-a — não que isso farça muita diferença para você, não é Álin?


Álin apertou os lábios. 


— Só estou dizendo — começou com cuidado — que se quer mesmo se manter longe do radar, matar pessoas não é a forma mais inteligente de se fazer isso. 


— Eu não estou matando pessoas — sua voz era algo entre desafio e irritação — Não é exatamente o que se poderia chamar de compulsão; posso ficar meses sem fazer minhas atividades caso seja necessário. Como agora.


— E depois? 


Tinha certo receio da resposta, mas precisava saber. 


— Você não vai comer? — perguntou.


Talvez realmente não quisesse ouvir a resposta. Apenas encarou o prato, como que esperando que ele se transformasse noutra coisa. 


— Eu nunca envenenaria um dos meus pratos, estragaria o sabor que trabalho tão duro para criar, se é o que está pensando, Álin. 


— Não é isso que eu estou pensando. 


— Está pensando na vida que considera real, aquela que compartilha com sua esposa e afilhado, a família perfeita que você ama e precisa não de um jeito honesto, mas de uma maneira intrinsecamente egoísta.  Porque eles têm a missão injusta de te afastar da escuridão que vive dentro de você. Já são quase 6 horas da noite e sua esposa já deve ter chegado do trabalho, e buscado o filho na escola, ambos em sua casa fazendo coisas ordinárias, imaginando onde você está, chegando a conclusão que deve estar com o DHPP. Talvez uma parte menor de sua mente vague até seus colegas de trabalho, que não confiam em você desde que ajudou a se livrarem de uma das maiores serial killers da década. — pausou — Está pensando na traição que é estar aqui. 


Álin cruzou os braços sobre a mesa, o corpo tenso, os olhos pregados na superfície da mesa. Depois de toda a cerimônia, não esperava que ela a machucasse com palavras, mas devia saber melhor. O monstro da culpa ameaçou sair da jaula e teve de controlá-lo. 


— É por isso que me chamou aqui? Pra fazer eu me sentir mal por ajudar você?


Natasha entrelaçou os dedos na mesa, como que numa reunião especialmente importante.


— Não, Álin. Eu só quero que você entenda minha situação. 


— Sua situação é excelente. Você poderia estar no instituto psiquiátrico da Serra. 


— O que estou vivendo agora não é tão diferente do que vivia lá. Tecnicamente, estou confinada a maior parte do tempo, não estou assassinando nada nem ninguém, e ainda estou esperando por você.


— Eu estou aqui.


— Não, você está numa encruzilhada e não consegue e não quer decidir qual estrada tomar. É mais fácil construir uma morada confortável no meio dela. Infelizmente, sua recusa em seguir em frente também está me prendendo nessa morada. 


— Estou bem onde estou. — mentiu, ríspida —  E eu nunca pedi para você me esperar, nem uma única vez. 


— E mesmo assim, aqui estou.


— Natasha — destacou a palavra — Você pode ir embora quando quiser. Sabe que eu não vou te entregar. 


Por um momento, Natasha apenas a observou, entre inexpressiva e taciturna, olhos pétreos, vazios e sombrios. E foi como se estivessem conectadas mentalmente, pois soube as exatas palavras dela antes mesmo de serem pronunciadas;


— Não iria embora sem você.


Álin engoliu em seco. Não disse nada. O que haveria de dizer? Confortá-la? Censurá-la?


— Eu poderia estar muito longe daqui, em lugares muitíssimos mais agradáveis do que uma casa abandonada em Rodopião a qual, a qualquer momento, pode estar cheia de policiais — inclinou-se e Álin teve a impressão de que ela estava próxima, perturbadoramente próxima e não do outro lado da mesa — Eu poderia estar em Zagreb, em Aberdeen ou quem sabe na bela Montreal. Tenho lugares preparados perto de riachos croatas e em zonas rurais da amabilíssima terra escocesa. Eu poderia ter acordado hoje e partido; poderia estar neste exato momento caminhando na Grécia sentindo o perfume do fantasma de Atenas Partenos. 


Não sabia aonde aquela conversa daria, então resolveu manter-se calada. Fitar a mesa era a única coisa razoável para Álin. Não queria olhar para ela, ou pela sala, ou pelas janelas cheias de sombras.


— Entretanto, — continuou — ainda estou aqui. Ainda esperando por você. Esperando por uma resposta. 


— Eu-


— Vamos partir, Álin — interrompeu — Não precisa fingir ser alguém que não é, não precisa ser o sua própria atriz da família de mentira ou para qualquer um do DHPP. Não precisa passar seus dias com os olhos ardendo devido à luz que se obriga a suportar enquanto se esconde em cantos escuros quando pensa que ninguém a vê, lembrando-se de antigas paixões — pausou e retomou logo em seguida — Não precisa fazer nada disso, Álin. Fuja comigo. 


— É por isso que me chamou com toda essa urgência, não é? Se cansou e resolveu me perguntar se eu vou com você ou não.


Natasha sorriu maliciosamente.


— É uma maneira de se dizer.


Álin bufou. Não havia maneira de ela sobreviver o resto da noite sem uma cerveja. 


— E então?


— O quê? Espere… Você… Você quer que eu te responda agora? 


— Uma pergunta simples cuja resposta também é simples. Se iremos fugir juntas ou não. 


— Eu... — Álin, de repente, sentiu-se encurralada — Não posso. 


Natasha umedeceu os lábios. 


— E por que não poderia? — A voz era calma como folhas de outono. 


Álin respirou fundo algumas vezes antes de responder;


— É tudo… Tão simples pra você.


— Não tão simples quanto pensa.


— Por acaso — viu-se trincando os dentes — você pensou realmente no que faríamos quando fugíssemos? Não apenas no plano de chegarmos ao aeroporto ou no barco, mas no panorama completo? O DHPP desconfia de mim, mesmo quando todo mundo já te deu como morta. Se eu desaparecesse sem mais nem menos eles saberiam. O seu projeto de vida é fugir da Interpol pelo resto de nossa existência?


— Álin — disse docemente como se estivessem falando de poesia num parque — não há necessidade de ficar preocupada. É mais do que certo teríamos uma vida comum longe dos holofotes da Interpol e de possíveis agentes bisbilhoteiros do DHPP ou do resto da Polícia Civil. Teríamos cuidado e, a qualquer movimento suspeito, mudaríamos de país, se houvsse necessidade. 


— Esse é o seu plano? — riu nervosamente — Vamos comprar uma linda casa numa colina com cerca branca e ficarei em nosso lar te esperando como sua dona de casa. 


Natasha o fitou. 


— Neste século, é recomendável que as duas partes tenham empregos, Álin, mas você pode fazer o que melhor lhe convir. 


Álin sorriu e apoiou a cabeça numa das mãos, o cotovelo na mesa. Deixou o sarcasmo voltar a colorir o ambiente.


— É estranho, Álin, essa sua incerteza angustiante porque, quando olho para você, eu me lembro da mulher que tinha certeza. Lembro-me da mulher que atirou em mim e depois nela mesma. Porque viver sem a outra e morrer eram a mesma coisa. Porque ambas morrerem nos tornaria eternamente próximas.


— Quer que eu peça desculpas?


— Não, não — disse, quase penosamente — quero ver a certeza que você teve naquele momento.


Álin balança a cabeça. Não queria voltar naquilo. No eterno pesadelo.


— Tudo o que você faz... Tudo o que você representa... É nefasto.


— E não finja nem por um minuto que essa não é a razão do seu encantamento.


Lá fora o mundo se desmachara em cinza e branco. Imaginava se seu interior estava da mesma forma. Ou se nela só havia escuridão.


— Por quê, Tasha, você me deixou viva depois do que eu te fiz?


Natasha a olhou, os olhos sempre sábios e afiados, agora gentis.


— Porque Álin, eu não deixei. Nenhuma de nós. Como na vida, na morte não há escapatória para qualquer uma de nós a não ser a outra.


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