Assistir Lista Negra é divertido, mas extremamente frustrante

By Alana Campanha - dezembro 02, 2021

 


Anos atrás eu vi um comercial de uma série na Globo, chamava-se A Lista Negra. Me pareceu interessante na época: o criminoso número 1 mais procurado dos Estados Unidos, Raymond Reddington, decide se entregar ao FBI sem motivo aparente. Ele também informa ao FBI que ele tem uma lista de criminosos extremamente perigosos, tão cuidadosos que nem mesmo a polícia sabe que eles existem. Reddington faz uma proposta: ajudar o FBI a pegar esses criminosos da Lista Negra (como ele mesmo apelidou) em troca de imunidade, se tornando um informante da polícia. Novamente, não parece haver razão nenhuma para Reddington simplesmente decidir se entregar e ajudar a capturar criminosos, o que sabemos é que ele tem uma única condição para fazer isso: ele só vai falar com a agente Elizabeth Keen, a Liz, uma agente novata do FBI.

Assim, logo em seu primeiro dia como agente do FBI, Elizabeth é levada para o que vai ser a primeira de muitas conversas com Red. Ela não o conhece, não há qualquer relação entre eles, mas ele parece saber tudo sobre ela e sobre sua família. Quem é ele? Como ele sabe tanto sobre ela? Por que ele a escolheu? Cada episódio foca em um nome da lista diferente, os casos vão passando, o dia a dia é cheio de ação e investigação na vida de Elizabeth e da Força Tarefa (grupo especialmente montado para investigar e capturar nomes da Lista Negra). Logo, não demora para Elizabeth desconfiar que Raymond Reddington pode ser seu pai.

A série é basicamente isso. Uma forte veia procedural, cada episódio um caso diferente, cada episódio, um nome dado por Reddington. O suspense que liga todos os episódios é sempre o mesmo: quem Reddington é para Elizabeth, qual a relação dos dois. Por que não parece que ela é só a policial que ele resolveu escolher para falar os nomes, não, há um grande sentimento de proteção que ele tem por ela, que, logo na primeira temporada, parece ser claro que se trata de amor paternal. Entretanto, quando Elizabeth finalmente pergunta se ele é seu pai, depois de uma pausa, ele nega. 

Claro que ficamos intrigados. Ele está dizendo a verdade? Reddington parece ter dito a verdade, mas se ele não é pai dela, por que se importa tanto com ela? A série é cuidadosa em demonstrar que os comportamentos de Reddington são paternais, e ao longo das temporadas, fica cada vez mais claro sua disposição em se sacrificar por Elizabeth. Logo na primeira temporada, fica claro que ele daria a própria vida se isso significasse que ela ficaria segura. A dúvida perdura: se ele não é pai dela, por que a ama a esse ponto? Por que suas ações são condizentes com as ações de um pai protegendo sua filha se ele aparentemente não é?

A primeira temporada tem seus defeitos, mas é um bom começo para o mistério. Vemos a parceria entre Reddington e Elizabeth se construir, vemos Elizabeth partir de desconfiada para afável, então desconfiada novamente, até lapsos do surgimento de uma amizade. Ela quer confiar nele e quer respostas sobre sua própria família, mas ele é criminoso número 1, saber que ela pode estar de alguma maneira ligada a ele é desconcertante. 

Também é importante saber que a Elizabeth foi adotada aos 4 anos após um terrível incêndio, sem nenhuma lembrança de sua família biológica, informações importantes que Reddington está decidido a não compartilhar com ela. O que realmente aconteceu no incêndio e quem estava lá é um dos mistérios que se arrastam pelas temporadas. 

Além disso, a primeira temporada tem grande foco no marido de Elizabeth, Tom, que logo descobrimos que se trata de um espião contratado para se relacionar com ela. Elizabeth tenta lidar com isso investigando o próprio marido, o que nos deixa no suspense para saber como isso irá terminar. Além disso, temos o início do arco de Berlim, o primeiro grande antagonista de Red, um nome alto da lista.

A série... é divertida. Reddington é um daqueles personagens impossíveis de não gostar, é um super criminoso temido e ao mesmo tempo, educado, excêntrico, elegante e cheio de histórias engraçadas para contar, um carisma sem igual. Ele consegue agir como um amigo querido em um segundo e no outro te ameaçar (e matar) se você não der a ele o que ele quer. No fim das contas, você continua assistindo não só pelo mistério, mas principalmente por causa dele. 

E talvez tenha sido aí que os problemas começaram. Red é maravilhoso de se assistir e a série foi um sucesso, o que infelizmente ajudou os produtores a tomarem decisões horríveis, a primeira? Alongar a série. Para A Lista Negra, isso significou simplesmente não responder o grande mistério que liga Reddington à Elizabeth. Porque, aparentemente, o mistério é tão grandioso que as temporadas vão passando e o público não tem resposta nenhuma, no máximo, pistas, algumas até falsas. Eu só imagino como deve ter sido acompanhar a série durante o lançamento, esperar anos e anos por uma resposta que nunca chega. 

Recomendo a série? Complicado. Como as temporadas já estão todas na Netflix, é uma opção para você maratonar ao longo das semanas, pois apesar dos defeitos, Red é bom demais de acompanhar. Red é um vilão protagonista primoroso, estiloso e esperto,  ao lado de Dembe, seu fiel ajudante, é a melhor coisa da série. E a própria temática da história, uma delação premiada de luxo é interessante de acompanhar. Ver o "maior criminoso do mundo" entregando outros criminosos tão perigosos quanto é muito legal de ver.

E quando se trata do grande mistério da série, como já está tudo disponível, você não vai precisar esperar por anos por uma resposta que nunca chega. 

Porque sim, a grande revelação demora para acontecer. Demora demais. Tenha em vista que agora, são 8 temporadas lançadas, cada uma com 22 episódios cada. E em qual delas finalmente temos respostas? Literalmente nos episódios 21 e 22 da 8ª temporada. Sim. Mas veja pelo lado bom: se começar a assistir, você não vai ter esperado 8 anos.

Essa demora permitiu que uma porção de teorias surgisse ao longo do tempo, a maioria dizendo que ele é sim o pai dela, mas como isso seria  resposta mais óbvia, outras foram aparecendo. Reddington podia simplesmente ter tido um caso com Katarina Rostova, a mãe de Elizabeth e por isso, pegou apreço pela menina. Como Katarina desapareceu, Red sentiu-se responsável por Elizabeth. Outra, é que Red podia simplesmente ser irmão do pai de Elizabeth e após a morte dele no incêndio, ficou responsável por ela, como um tio. Claro, nada disso explica muito bem, o amor de Red por Elizabeth parece muito mais um amor de um pai do que o apreço de um tio ou de um cara que gostava da mãe dela. 

Houve também a teoria do impostor, onde Red não é o verdadeiro Red e se apossou dessa identidade quando o verdadeiro morreu no incêndio. Isso também levou à teoria maluca de que Reddington é na verdade Katarina Rostova, a mãe de Elizabeth, e após o incêndio, houve uma cirurgia de redesignação sexual e acabou tomando a identidade de Raymond Reddington no processo. Uma teoria que realmente existiu.

Temporadas 6 a 8: por que desandou? [SPOILERS]


No final da 5º temporada, temos uma revelação bombástica: Reddington não é o Reddington de verdade, ele é um impostor. É, aparentemente os fãs acertaram. Há 30 anos no incêndio, o verdadeiro Reddington que é pai da Elizabeth, morreu e o nosso Red acabou tomando seu nome e identidade. A partir daí, ele construiu seu império criminoso. 

Logo, nas próximas temporadas, a série decai de qualidade de uma maneira surreal porque continuam sem querer revelar a identidade do Red, então temos arcos inteiros arrastados, de personagens não dizendo nada, escondendo. É aí que Elizabeth Keen se torna praticamente uma antagonista, cujo único objetivo é descobrir a verdade sobre Reddington, o que a faz ir contra ele constantemente. A parceria que havia se construído nas primeiras temporadas desaparece, e Elizabeth o trai diversas vezes sem nunca sofrer nenhuma consequência, já que é a única que pode tentar algo contra Red, já que ele não vai matá-la.

Isso complicou muito a série, pois Elizabeth é tecnicamente a boa protagonista que temos que torcer, mas Red sempre foi o favorito do público. Então ver Red sacrificando tudo por Elizabeth e recebendo em troca um alvo nas costas não é exatamente a melhor maneira de escrever uma protagonista carismática, mesmo que seu anseio por respostas seja legítimo.

Quem afinal de contas é Raymond Reddington? [SPOILERS]


Ficou com vontade de assistir? Então é melhor parar por aqui. Ou continue caso não ligue para spoilers. Talvez assistir já sabendo a identidade de Reddington pode ser uma experiência completamente diferente. Quem sabe?

Nos episódios 21 e 22 da 8ª temporada, não há uma resposta explícita, mas as explicações apresentadas e diálogos dos personagens (e até mesmo a linguagem visual) indicam  fortemente que nosso Raymond Reddington é na verdade Katarina Rostova, uma espiã russa e mãe de Elizabeth Keen. Sim, no fim das contas e depois de oito temporadas, ele realmente não era o pai de Elizabeth, era a mãe dela.

Claro, muitos não gostaram já que, bem, não é exatamente algo comum você acompanhar um protagonista homem por oito anos e de repente descobrir que ele já fora não só uma mulher, mas uma super espiã russa. Claro, não há surpresa, como muita transfobia com essa revelação e piadas, pois essa teoria sempre foi uma piada para a maioria. Ninguém realmente acreditava que ia acontecer. Ao menos não antes da 8º temporada. 

E querendo ou não, houve pistas espalhadas pela série. O problema é que como claramente os roteiristas não sabiam a relação de Red e Elizabeth no começo da série, eles foram colocando pistas confusas que poderiam se encaixar em qualquer teoria. Mas quando viram que estavam enrolando por tanto tempo, resolveram pegar a mais polêmica e a que "mais faz sentido" entre muitas aspas. Pois ele não poderia ser o pai, era óbvio demais (e já havia sido provado que ele não era), mas também não poderia ser um terceiro qualquer, pois isso não explicaria o amor tão grande que ele sente por ela. Então sobrou ele ser a mãe. 

Alguns furos de roteiro sim - nunca vimos Katarina Rostova mostrar qualquer sinal de ressentir sua identidade feminina, a não ser por uma única fala no episódio Nachalo "Eu fui o garoto que meu nunca teve" - mas não algo vindo completamente do nada. Mesmo antes da 8º temporada, havia pistas de que Red era russo, do ressentimento que o avô de Liz sentia por Red, agindo como se Red tivesse matado sua filha, uma simbologia comum na vida real que agem como se filhos tivessem matado quem eles eram após revelarem seu verdadeiro gênero. Mas além de outras pistas, a mais reveladora foi Kaplan dizer que Red entregou uma Liz bebê para ela cuidar, contudo, no flashback que vemos, quem faz isso é Katarina.

Ainda tem muitos furos, pois minha teoria pessoal é que os roteiristas só se decidiram realmente na 8º temporada, mas o que está feito, está feito. E uma coisa bem legal nisso é que o ator que interpreta o jovem Red em Nachalo é realmente um homem trans. Nem tudo são flores, pois é nem de longe uma história que faz muito sentido em amarrar Red como Katarina, já que em nenhum momento há qualquer menção de uma crise de identidade em Katarina. 

No fim do dia, não me arrependo de ter visto, mas é uma série estressante onde as respostas demoram a aparecer. E o fato de Elizabeth se tornar insuportável dificulta muito. Contudo, para quem ama procedurais e um vilão como protagonista... Pode ser uma boa pedida.





  • Share:

You Might Also Like

0 comentários