Objetos Cortantes e o plot twist que não é plot twist

By Alana Campanha - março 03, 2022


Tive uma história complicada com Objetos Cortantes, ô se tive. Não, não estou falando da série da HBO com a perfeita Amy Adams (que mulher!) e sim do livro no qual ela foi baseada. Escrito por Gillian Flynn, ele é um romance policial que mostra uma jornalista retornando à sua odiada cidade natal no interior para escrever uma matéria sobre dois assassinatos de meninas. Enquanto tenta realizar este trabalho, ela precisa lidar ainda com sua família por precisar ficar na casa deles, entretanto, a relação com sua mãe e irmã é permeada por frieza e falta de qualquer amor.

Em primeiro lugar, eu não desmotivo ninguém a deixar de ler a obra. Sério, leia. Não é no nível de Garota Exemplar, mas as temáticas trazidas valem muito a pena, principalmente por serem pouco discutidas na literatura contemporânea ou até de uma maneira geral, como mães narcisistas e mães que não amam seus filhos. É uma discussão polêmica, mas necessária, afinal de contas, parir não faz de ninguém uma mãe e sim amar e criar a criança com respeito e carinho.

Quanto ao mistério central... é complicado. A jornalista fica o tempo todo de mãos atadas já que a polícia não quer dar informações e os parentes das crianças assassinadas também não estão muito a fim de falar, a não ser pelo pai de uma delas. Então meio que a gente, o leitor, fica frustrado junto com a protagonista e sem receber informações suficientes ou pistas. E o fato dela ser uma jornalista e não ter nenhum objetivo além de escrever a matéria, enfraquece bastante o enredo. 

Normalmente, jornalistas em romances policiais tem razões para pegar uma matéria, mesmo que só um senso de justiça ou um pagamento no final, e acabam por eles próprios investigarem, lutarem por pistas e contra a incompetência policial. São pessoas ativas, que não querem só escrever uma matéria, mas realmente encontrar o culpado e ajudar a comunidade.

Aqui, isso não existe. Ela quer escrever a matéria e vazar, só isso. Eu não ligo para protagonistas que não querem ser heróis ou ajudar, mas eu gosto de pessoas ativas, que vão lá e investigam, interrogam, vasculham, lutam por desvendar o mistério. É um romance policial, se a própria narradora não parece ligar para a investigação, por que eu ligaria? 

De qualquer forma, Objetos Cortantes brilha mesmo na relação da filha, sua mãe e irmã, uma relação familiar transtornada, mas que todos fingem que não há nada de errado. Entre abraços falsos e boa educação, a mãe está sempre disposta a fingir um amor inexistente, a origem dos distúrbios da protagonista. É muito interessante, gostaria mesmo que a autora tivesse desistido de tentar uma história de mistério fraca e focasse somente na família.

Se você gosta de narrativas sombrias que perpassam por famílias problemáticas, então sim, recomendo a leitura!

O Final (SPOILERS) 

LEIA O LIVRO ANTES DE LER ESTA PARTE. 

Para mim, o final é uma decepção sem tamanho. E eu não sei se o problema sou eu ou o livro. Eu sabia que teria algum plot twist, então eu redobrei minha atenção durante a leitura. Foi meu erro? Eu amo suspense, thriller e mistério, amo Agatha Christie (nada acima da RAINHA), adoro ficar juntando pistas e investigando junto com o protagonista quem é o assassino. É um jogo. Existem técnicas para se criar e esconder um assassino no livro, grande parte criada e utilizada por Christie e autores contemporâneos que se inspiram nela. Por isso, quando existe algum personagem muito óbvio, ele provavelmente não é o assassino. Essa é regra principal na escrita de um romance de mistério.

Mas isso não acontece em Objetos Cortantes. O óbvio é o óbvio. A pessoa que foi apresentada como vilanesca, ruim e mal caráter.... surpresa, é a assassina! Sim, a garota que odiava as vítimas, fazia bullying com elas, as atacava e era a favor de homens estuprarem mulheres... surpresa, ela é a assassina das mesmas meninas!

Sério, eu estou maluca? Por que raios a autora DESDE O COMEÇO apresentou essa irmã como uma pessoa péssima, que ataca, tortura e odeia mulheres se ela seria a assassina!? Era a escolha mais óbvia possível, então por que??? O plot twist era mesmo esse? A pessoa ruim... é na verdade uma pessoa ruim? É isso?

A autora tenta fazer um segundo plot twist também: a mãe na verdade tem Síndrome de Munchausen por Procuração e adoece a filha menor (a assassina), mesma coisa que fez com a outra filha que morreu. É uma revelação muito melhor, não desconfiei, mas é aquilo, tem o mesmo erro da outra. A revelação é que essa mãe ruim... é na verdade uma mãe ruim? 

Ou seja, ela apresentou duas pessoas ruins na história, batendo na tecla o tempo todo de que elas são ruins. Depois, inventa um plot twist de que na real, essas duas pessoas são ruins. Não tem lógica, parece erro básico de iniciante. Fiquei tão consternada que pesquisei e descobri que Objetos Cortantes foi o primeiro livro dela. Só que o livro também recebeu prêmios, então, talvez o problema seja eu. Eu esperei um final genial e mirabolante, por isso me decepcionei? Mas novamente, por que raios ela escolheu um plot twist tão óbvio? 

Acho que esse é um dos livros que jamais vou entender. Talvez ela tenha escolhido falar sobre famílias disfuncionais e colocado o mistério só como pano de fundo, por isso não caprichou; talvez o objetivo sempre sido falar sobre problemas mentais e acabou colocando o mistério para encher linguiça. Ou talvez a identidade do assassino nunca foi importante e o fato de existir um "plot twist" tenha a ver com os fãs da autora que acabam fazendo um marketing ruim.

Bem, a lição fica para mim mesma. Leia sem pretensões e não espere um nível Agatha Christie de nenhum livro. Isso só causa decepção, mesmo que o livro não seja ruim.

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