O autor de Death Note escreveu um mangá novo

agosto 15, 2019


É desnecessário falar sobre Death Note, o anime e mangá é extremamente popular e cultuado, é aquela obra que todo mundo que curte animes ou boas histórias já viu ou vai ver em algum momento da vida. O fenômeno foi escrito por Tsugumi Ohba (pseudônimo, pois sua verdadeira identidade não se sabe, tal qual seu personagem L.) e desenhada por Takeshi Obata. Dito isso, é compreensível que outra obra de fantasia do mesmo autor teria poucas chances de chegar ao patamar de Death Note em questão de popularidade; em questão de qualidade, no entanto, é inegável que se esperava no mínimo um bom mangá. Os primeiros arcos de Death Note são um dos suspenses mais bem escritos já feitos, naturalmente se esperaria algo decente.

Qual foi minha surpresa por ver tantas reviews negativas quando os primeiros capítulos de Platinum End saíram? Neste mês, quando comecei a ler por mim mesma, pensei "não é tão ruim", depois que prossegui a leitura, pensei "é, é realmente ruim", depois "bem, tá melhorando". Platinum End, é, se me permitem, uma montanha de emoções. Você nunca sabe se vai achar o capítulo será bom ou ruim, a cada quadro ele pode te surpreender negativo ou positivamente. De qualquer maneira, deixe eu situar a história.

Mirai é um estudante depressivo que um dia, decide que vai se suicidar pulando de um prédio. Mas para a surpresa dele, ele é salvo por um anjo. O anjo (feminino) lhe dá de presente um par de asas e um conjunto de flechas vermelhas, que quando lançadas em alguém, a pessoa acaba se apaixonando por você (*suspiro*). Então o anjo lhe dá a notícia: ele só foi salvo porque foi um dos escolhidos para a competição de ser o novo deus, pois Deus quer uma pessoa para tomar o seu lugar. Agora, os escolhidos, alguns asas, outros com flechas, outros com ambos, terão de lutar para ser o novo deus.



A premissa é interessante, mesmo que chupinhada de Mirai Nikki. E o fato dos membros serem suicidas dá uma dramaticidade interessante. Entretanto, quando você vê uma premissa dessa, você espera que boa parte da obra seja efetivamente um battle royal, ou seja, muita ação. Ninguém espera ação de Bakuman ou Death Note, mas se espera uma história cuja premissa é um battle royal (ou devia ser). Na verdade, as lutas se baseiam muito mais em personagens tentando evitar uma luta ou na elaboração de estratégias para derrotar competidores violentos. Tsugumi Ohba tenta trazer inteligência na competição, mas é esquisito quando a cada capítulo ele apresenta uma arma mortal e trajes de combate, sempre elementos novos que serão usados em batalhas que quase não ocorrem e quando ocorrem, são mal desenhadas e confusas, justamente porque a ação não é o foco principal. Mas se não é o foco, por que tanta perda de tempo em mostrar armas novas, trajes de tokusatsu, tanto preparação e suspense para uma batalha que na verdade nem é boa?

E o mangá já perde sua atenção já na premissa, porque convenhamos, é ridículo, bobo demais uma história "pesada" lidar com o conceito de flechas de amor. Não importa quanta violência tenha, é uma bobagem que uma história sombria não suporta. Não dá pra levar a sério. Sem contar os dois ou três capítulos que se passaram num estádio de basebol onde ficamos vendo alguns competidores vestidos de tokusatsu, e ao invés da situação toda me fisgar, não consegui levar a sério. Pessoas fantasiadas sem motivo numa história que finge a todo momento ser "séria" e "sombria" não cola, não importa se são Power Rangers escritos por Tsugumi. Ao menos Marvel e DC arranjam desculpas para suas bizarrices. 


E o que dizer dos personagens? Bem, tirando o anjo Lapel e um o homem com doença terminal, são bem esquecíveis. Tenho a impressão de que Tsugumi tentou fazer personagens o mais diferente possível dos de Death Note (muitos mangakas sofrem críticas por fazerem sempre os mesmos tipos de personagens, vide o autor de Fairy Tail com sua nova obra), então eu bato palma para a decisão de Tsugumi. Mirai não precisaria ser um novo Yagami Light. O problema é que para isso não era necessário criar um protagonista destituído de carisma ou coragem. Não precisava criar outro psicopata, mas também não precisava criar um cara que literalmente repete quase todo capítulo que "matar é errado", "matar os outros é ruim"; parecem falas de um menino de três anos, pelo amor. Podia ser até interessante um cara que não quer matar dentro de um battle royal, mas fazer dele um bobo não foi a melhor opção. Batman e Demolidor tem um código moral de não matar muito mais forte do que Mirai, mas eles não vão ficar de braços cruzados e resmungando pelos cantos por causa disso.   

Saki, a moça por que Mirai é apaixonado cuja personalidade, é a típica personagem sem sal, sem características marcantes, sem nada. Toda sua depressão, tendências suicidas e tristeza são por causa de Mirai são por causa de Mirai, alguém que praticamente nem tem contato (?), e claro, também lhe falta qualquer coragem, motivação, personalidade, na maior parte do tempo, ela é só um rosto bonito de ver pelos cantos deixando os outros resolverem seus problemas; ou seja, é uma versão feminina de Mirai. Já dá pra ver quanta química os dois tem junto rs.

O anjo Lapel (ou Ravel), o melhor personagem.

E apesar de tudo, em certos momentos a obra prende. Certas estratégias em descobrir quais escolhidos tem determinadas flechas, quais tem asas, como reunir todos, como retirar os violentos da jogada, como descobrir a identidade deles, quem é a melhor escolha para ser deu, são coisas muito interessantes que se perdem no meio de tantas bobagens. Se o ridículo das flechas de amor, Power Rangers sem necessidade e protagonistas com falta de personalidade, a história poderia estar num patamar muito mais alto do que está. Pois a história tem muitos momentos bons, outros ruins, outros nojentos, quase todas as cenas de ação são muito confusas, mas a história é interessante de acompanhar. Sabe, um guilty pleasure ou uma história com alto potencial deixado no meio no caminho? Difícil dizer.

Talvez seja errado ficar comparando uma obra com a outra, mas é complicado não fazê-lo quando é o mesmo autor e o mesmo gênero. Talvez Tsugumi consiga alcançar novamente a maestria do suspense sobrenatural dos primeiros arcos de Death Note, talvez não. Só o tempo dirá. Ainda acredito que Platinum End é uma obra no meio do caminho para algo mais grandioso no futuro. Se Tsugumi parar de dar tanta atenção a one-shots de Death Note ou obras de fantasia mediana como Platinum End, algo bom virá. Bem, esse é o fardo de sempre ter esperanças em escritores que eu admiro.



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