Cidade Invisível e porque brasileiros querem sim ficções brasileiras!

By Alana Campanha - março 28, 2021

 


Em alta em mais de 40 países, Cidade Invisível está dando o que falar! Finalmente, temos uma série de fantasia brasileira com cultura e folclore brasileiros! E além de todas as coisas boas que a série trás como uma boa história de fantasia, ela também me fez pensar sobre como os brasileiros, apesar do que dizem as más línguas, realmente tem vontade de consumir o próprio folclore. Antes de nos anteciparmos, vamos ao plot!

Cidade Invisível segue Eric, um agente da Polícia Ambiental que acaba de virar um pai solo após a morte de sua esposa em um incêndio florestal. Ainda completamente devastado, em um dia comum de serviço, Eric resgata um boto cor de rosa da praia e leva-o para casa, só para descobrir que o animal se transformou num humano. É a partir daí que a investigação pessoal de Eric sobre a morte da esposa e o suposto incêndio da mata vão se interligar e, principalmente, aproximá-lo de lendas de nosso folclore que ele nunca imaginou serem reais.

A série é maravilhosa quando mostra nossos personagens e os traz para o mundo contemporâneo, onde sofrem as consequências da destruição das matas e a desigualdade social. O pequeno grupo tem táticas diferentes, tomam conta de um bar para sobreviver numa espécie de clube noturno, ou moram nas ruas enfrentando a realidade dos sem-teto, mas todos querem manter suas reais identidades em segredo. Cuca, Saci, Iara, Curupira, Boto e vários enchem nossa tela e aquele pensamento de "eu conheço!" dá um quentinho no coração. É simplesmente sensacional descobrir qual lenda é qual personagem, vê-los num viés mais "realista" sem perder as origens fantásticas. 

Claro que nem tudo são flores. Eric não é um protagonista ruim, ele tem suas razões egoístas e muitas falhas como pessoa, não só como investigador, mas como um pai também. Isso o afasta de ser o bonzinho chato sem carisma que poderia ter sido, sem, no entanto, vetar seu senso de justiça; é um cara bom que erra demais e está passando por um momento devastador de sua vida. É nesse ponto que Cidade Invisível meio que cai um pouquinho: o drama da esposa morta pesa tanto na trama que passa a ficar mais chato do que dramático ou triste. Na verdade, você espera os vários minutos gastos no trauma da filha de Eric, no próprio Eric lidando com isso, nas ilusões da esposa morta, em tantas cenas desse drama e a única coisa que você torce é que a próxima cena seja com um dos personagens do folclore. A série é uma imensa espera para que a Cuca ou o Saci ou qualquer outra lenda apareçam. 

Apesar disso, a investigação é interessante de acompanhar (pelo menos quando não acompanhada pelo excesso dramático que já comentei). Eu pessoalmente gostei bastante do fato dele ser um policial ambiental e ir pouco a pouco conhecendo a vila ameaçada por um empresário que quer desmatar a área; achei super legal também o "líder" dessa vila acreditar nas lendas, principalmente no Curupira, e ser o única pessoa que realmente os conhece e sabe que eles são reais, até os visitando no clube noturno. 

É uma série que eu realmente me apaixonei, apesar de alguns furos e outras coisinhas os personagens me cativaram de uma maneira que eu até fiquei triste por serem tão poucos episódios. Meus favoritos foram a Inês (a Cuca) e o Isac (o Saci), mas todos foram maravilhosos. A atuação do Curupira não foi nada menos que perfeita, digna de prêmios. Eu fiquei super feliz por ver tantos brasileiros comentando a série e outros países assistindo também. O anúncio da segunda temporada foi a cereja do bolo!

Aí começo um questionamento sobre uma frase que sempre ouvi: brasileiro não gosta de folclore brasileiro. É uma verdade ou um achismo consequente pois não existe a preocupação de torná-lo interessante para todos? Porque nosso folclore, na grande maioria das vezes, só é citado quando somos crianças ou pela mídia infantil, como Sítio do Pica Pau Amarelo ou uma aparição ou outra na Turma da Mônica. É algo que as pessoas forçam tanto que são só lendas "engraçadinhas e infantis" que só servem pra enfeitar lancheiras e cadernos, que acabamos inevitavelmente nos afastando de nossa herança cultural e lendas. 

Não é como a mitologia nórdica, grega ou até a egípcia, que tem uma grande produção de livros, filmes, séries e exportação para que outros países conheçam essas histórias; não, a mitologia e folclore brasileiros são diminuídos pelos próprios brasileiros no preconceito de que "ninguém quer ver isso" sem nem mesmo tentarem. Cidade Invisível é essa tentativa e está mais do que provado de que sim, brasileiros (e muitos outros países) querem sim ver isso. 

A questão, pelo que vejo, além do preconceito, é a falta do folclore. Quando o trailer de Cidade Invisível saiu, praticamente todos os comentários eram enaltecendo finalmente um produto com nosso folclore, agradecimentos pela série existir, ansiedade por assistir nossas lendas etc. Como criticar brasileiros por não consumirem nosso folclore se simplesmente quase não existe nada para consumir? A demanda existe, o que falta é a coragem de produzir.


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