As desventuras de se gostar de Dan Brown

by - 16:28

@renanmoraisart

Dan Brown virou praticamente uma piada no mundo literário, ao menos, para quem se considera leitor só da dita "alta literatura", apesar de eu já ter visto pessoas que respeitam todos os tipos de literaturas zoarem Dan; no final, não importa muito, pois no fim do dia, todo mundo está lendo o autor e seu nome permanece na lista dos mais vendidos. Minha tendência é sempre respeitar as leituras das outras pessoas, e como eu pessoalmente gosto de Dan (veja só), sinto-me uma obrigação de defendê-lo. Talvez a diferença é que eu enxergue seus defeitos ao mesmo tempo em que eu considero suas qualidades. Entretanto, como não são poucos os defeitos de suas obras, inclusive os que me incomodam de fato, desenvolvi um costume: sempre me pego no final dos livros dele pensando "esse foi o último livro dele que li".

Ocorreu todas as vezes, em todos os momentos em que cheguei a última página de cada livro de Dan Brown que li. A certeza de que não leria mais nada. Bem, para ser justa, isso não ocorreu quando li Anjos e Demônios, mas considero um romance à parte, até por ser o primeiro. De qualquer forma, mesmo com a promessa de me desfazer de Dan, sempre, SEMPRE, acabo comprando-o e lendo-o de novo, numa espécie insana de síndrome de Estocolmo.

Lembro que na época assisti a uma resenha muito entusiasmada do livro Anjos e Demônios. As expectativas foram lá em cima e acabei pegando o livro na biblioteca, tamanha vontade de devorá-lo. E que livro! Até hoje me lembro do choque com o final, que ainda considero um dos melhores finais de romances. Claro que hoje também também enxergo defeitos, alguns percebidos já na época, mas nunca realmente tiraram minha admiração e profundo espanto com o desfecho.

Depois comprei Código da Vinci, li e gostei. Na verdade, o tema ajudou muito na rapidez com que eu lia. Dan se utiliza de temáticas polêmicas e pequenas revelações ao longo do romance, o que deixa o leitor sedento por respostas, mesmo que não esteja exatamente amando o livro. "Como vou parar de ler depois dessa revelação?" "só vou parar quando descobrir o que isso significa", e quando você vê, já está na última página. Código da Vinci é mais ou menos assim, tal como as outras obras dele.

Foi neste segundo romance que comecei a notar as semelhanças gritantes entre uma obra de Dan e outra. Vale lembrar que estou pensando na série Robert Langdon, apesar de já ter ouvido que outras obras também repetem as mesmas características. Pois bem, a série trata de Robert Langdon, um professor de arte e história da Universidade de Harvard. Recluso, é o maior especialista em simbologia da universidade. Na série, Robert sempre acaba em eventos perigosos que o leva a resolver enigmas por cidades artisticamente ricas numa corrida contra o tempo, seja pela iminência de terrorismo biológico, por investigações na igreja católica ou futuros ataques com armas roubadas do CERN. Nessas caçadas, Robert tem sempre uma companheira de ação, todo livro uma mulher diferente que em essência, parece ser a mesma; uma mulher muito atraente, cientista e/ou pesquisadora e muito inteligente, sempre terminando como companheira romântica — por uma curta noite, pois Robert é celibatário. No fim da corrida contra o tempo, após resolver vários enigmas e visitar museus e outros lugares deslumbrantes, há um plot twist.

Por conta da estrutura e dessas características repetidas, dizem que Dan escreve o mesmo livro várias vezes. Parece uma fórmula que se repete de livro em livro e isso é bem perceptível. Entretanto, numa entrevista, o autor disse que não há fórmula nenhuma e que se tivesse, seria muito mais fácil escrever. De certa forma, eu o entendo. De fora, é bem mais fácil perceber vícios e repetições nos outros do que notarmos isso em nossa própria escrita. Para ele, enquanto escreve, deve ser bem diferente toda vez, assim como achamos que criamos coisas novas toda vez que começamos um novo rascunho. Não percebemos que criamos toda vez os mesmos arquétipos, a mesma estrutura, utilizamos adjetivos em demasiado, escrevemo sempre o mesmo gênero/sub-gênero etc. 

Por isso, é importante pensar bem e analisar a narrativa antes de efetivamente colocá-la em papel. E mesmo assim, não há nada de errado em repetições, as vendas de Dan Brown estão aí para provar isso. É uma falha grave caso Dan quisesse adentrar em qualquer coisa que não fosse a literatura de entretenimento. E ele está longe disso. Seus livros são uma viagem de moto em alta velocidade em ruas urbanas cheias de enigmas, segredos e obras de arte, perpassando por clichês hollywoodianos e por clichês que ele próprio estabeleceu. Nem sempre queremos ler clássicos da alta literatura, às vezes só queremos embarcar nessa viagem e de quebra, fazer passeios turísticos e conhecer um pouquinho de arte junto do Robert Langdon.


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