Doctor Stone é bom, mas o que faltou para ser espetacular?

outubro 04, 2019


Neste ano, tivemos diversos lançamentos de novos animes interessantes, mas sem sombra de dúvida, a premissa mais curiosa pertencia a Doctor Stone: um dia, todos os seres humanos viraram pedras. Após 3.500 anos, Senku, o rapaz estudioso, praticamente um cientista, volta ao normal, meses depois, consegue trazer Taiju de volta também, seu melhor amigo. Entretanto, nesses milênios sem humanos, a Terra voltou ao seu estado natural, semelhante à pré-história. Vendo o mundo e todo o desenvolvimento humano substituído por aquele mundo primitivo, Senku decide não só realizar uma série de experimentos e estudos para trazer todos os humanos de volta, mas principalmente utilizar a ciência para conquistar a evolução tecnológica humana ocorrida por milênios de nossa história. Desde o sabão até a pólvora e antibióticos, tudo precisa ser criado (ou recriado) do zero. Doctor Stone não só tem uma boa premissa, mas ideais grandiosos: a busca pela evolução e progresso, principalmente representadas pelo protagonista Senku, que nem mesmo diante do fim desiste de seus ideais.

Doctor Stone é um shounen com uma premissa sem igual. Ninguém quer ser o elemento mais poderoso de seu mundo como ocorre em todo shounen de batalha, aqui o objetivo é simplesmente transformar o mundo primitivo no mundo tecnológico que fora antes da grande transformação em pedra. Entre as brigas, desentendimentos e a formação de facções, os conflitos surgem para Senku e Taiju sem nos deixar esquecer que o mundo só irá evoluir com o uso da ciência, a coisa mais importante de nossa espécie e a única coisa capaz de trazer nossos milênios de desenvolvimento de volta. E como toda a evolução tecno-científica humana está guardada na mente de Senku, ele se torna uma das esperanças de nossa espécie. A corrida tecnológica nos avisa: a Ciência é a salvação.


A primeira vez que ouvi dessa história, era ano passado, bem antes do lançamento do anime. O vídeo mostrava um pouco sobre os novos shounen que estavam começando a fazer sucesso na shounen jump. A queda de Naruto e Bleach quebrou o trio que formavam com One Peace, o trio shounen da década de 2000 e 2010, e agora, as editoras precisavam procurar os novos títulos que seriam os novos reis. Mas a repetição dos shounen de batalha não estavam conseguindo ir além nem mesmo com a renovação do público, então a inovação de histórias fora necessário. Assim, o mangá curioso no qual um dos protagonistas queria levar a sociedade ao desenvolvimento científico junto de seu melhor amigo após todos virarem pedra, era algo inovador o suficiente para chamar a atenção até daqueles que tem preconceito contra o gênero*. O "problema" é que apesar de tanta inovação, ainda se trata de um shounen. Não que isso fosse um problema, mas quando o lançamento se espalhou e todos viram a tal premissa e sua grandiosidade, talvez nos esquecemos de para quem o produto é realmente destinado: jovens de 12 até 18 anos, ou seja, uma maioria pré-adolescente ou adolescente.

E por conta disso, temos um dos maiores problemas de Doctor Stone, sua comédia, o que também resulta em inverossimilhança. Talvez o autor teve receio de apresentar uma história com ciência que não fosse apelativa para os jovens, então forçou o humor na obra a ponto de torná-lo uma das suas principais características. O que não soa nada, nada bem no produto final. Quase todas as tentativas de produzir humor acaba sendo muito mais uma inconsistência narrativa do que numa cena realmente engraçada. É bem irônico em como um anime puramente cômico como Kusuo Saiki no Psi Nan tem menos furos de roteiro que Doctor Stone, que supostamente não é uma comédia pura.

Os dois primeiros episódios apresentam bem a inconsistência narrativa que, aparentemente, seguirá a obra até sua etapa final. Seres humanos são seres sociais e quando impedidos de estarmos com outras pessoas por um período muito longo de tempo, desenvolvemos problemas psicológicos, e quanto mais tempo sozinhos passamos, piores eles ficam. Em Doctor Stone, todos viraram pedra, inclusive Taiju, o protagonista junto de Senku. Durante todo o período em que esteve transformado, Taiju ficou consciente. Sim, um rapaz do ensino médio ficou preso no próprio corpo, sozinho e acordado por 3.500 anos. Os únicos pensamentos que ele parece ter durante esse tempo é na menina que ele gosta do colégio, pois ele queria se declarar a ela antes do grande evento. Porém o problema começa: quando ele acorda, parece mais que acordou de uma soneca. A falta de carga dramática é quase insuportável. Ele não desenvolveu nenhum problema psicológico, não está preocupado, não está triste, não parece que se passaram milênios e ele acordou num mundo onde tudo que ele conhecia, sumiu. Taiju está bem. A única inconveniência é a menina que ele gosta ter virado pedra, mas fora isso, tranquilo.


Como nos conectar com um personagem e se importar com sua dor se não há dor nenhuma? Não dá pra acreditar nesse personagem, pelo menos, não no início quando suas características mais marcantes é estar apaixonado, falar alto e ser burro. A falta de carga dramática também ocorre quando Tsukasa acorda. Nele, não só há a inexistência de qualquer problema em acordar no fim do mundo, como a completa falta de surpresa. Parece que acordou de uma soneca de fim de tarde. Até aí, comecei a entender. Ter pessoas agindo como deveriam não seria engraçado; explorar a mente dos personagens, o luto, a tristeza pelo mundo que se foi, o receio de um novo, seriam coisas profundas que mudaria completamente a narrativa. Mas como a comédia é o fator mais importante, isso nem foi pensado. Faça o personagem acordar como se nada tivesse acontecido e o jogue logo na trama. Se as coisas ameaçarem a ficar séries demais, meta uma piada fora de hora para o público não se conectar emocionalmente com a história.

Essa falta de peso dramático para favorecer o humor exagerado acaba afastando a obra da realidade. Isso não seria problema (é uma obra de ficção afinal de contas), mas quando se trata de uma obra cuja premissa básica é que a salvação para todos os problemas é a ciência e o pensamento racional, fica no mínimo esquisto ver coisas como um cara matando leões como se tivesse super-força ou pulando grandes distâncias como se tivesse saído de Naruto. Para você amar uma obra, você precisa acreditar no mundo que ela propõe, isso é a verossimilhança. É diferente de ser realista. Eu não espero "realismo" de todas as obras que assisto/leio, mas se eu visse o John Wick, que não tem nenhum compromisso em representar a realidade, correndo em super-velocidade e saltando prédios, eu iria achar esquisito, então imagine ver a mesma coisa em Doctor Stone, o anime "científico" da temporada. 


É como se exceto os experimentos e explicações científicas, o anime não tem nenhuma preocupação em demonstrar a realidade. Vemos o disclaimer que o estúdio precisou colocar no fim de todos os episódios, o qual avisa que todos os experimentos eram reais, por isso, não deveriam ser realizados em casa sem a supervisão de um adulto. Mas você vai de uma cena onde Senku explica (corretamente) o que é ácido nítrico para outra onde macacos falam; você assiste Senku mostrando como se faz sabonete para depois ver uma cena de uma quase morte, a mais dramática, ser interrompida por uma piada sobre boca a boca. Sai de ciência, para a fantasia, sai de uma possível cena dramática, para uma piada. O ciclo se repete. E é necessariamente pior em Doctor Stone, pois Senku diz com todas as palavras que vai derrotar a fantasia com ciência, mas o próprio autor insere elementos fantasiosos em meio aos elementos lógicos. Fazer o Senku ficar confuso quanto à força e velocidades inumanas de Tsukasa não é o suficiente para torná-las menos fantasiosas. 

A falta de explorar a mente dos personagens sobre os danos causados por 3 mil anos em estado vegetativo e o exagero cômico levam Doctor Stone a patamar abaixo do que merecia, principalmente por haver momentos muito bons. A morte de um importantíssimo personagem, a guerra ideológica entre Senku x Tsukasa, os valores de Senku, seu objetivo de reconquistar a evolução tecnológica humana. Senku que, inclusive, é o melhor personagem, consegue ser genial e carismático ao mesmo tempo; na verdade, toda a escalada em direção à evolução é um diferencial em relação à jornada de herói tipica de shounen de batalha, e a cada vez que Senku consegue chegar em alguma tecnologia, seja o sabão ou a eletricidade, sentimos como pessoa que o progresso da humanidade está recomeçando. É impossível não se arrepiar quando uma lâmpada ascende pela primeira vez em mais de 3 mil anos, é como assistir ao vivo a evolução da humanidade acontecendo diante de seus olhos.

E são por esses momentos absolutamente maravilhosos que me fazem ver o quanto Doctor Stone podia ser espetacular. Agora, à sombra de sucessos grandiosos e hits da temporada, Doctor Stone é mais conhecido como "aquele anime engraçadinho de ciência" do que a jornada intensa e épica que premissa pressupõe. 




* shounen não é um gênero propriamente dito, apesar de ser conhecido assim no senso comum. Na verdade, refere-se somente ao público-alvo, no caso, meninos de 12 a 18 anos.



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