Fracasso de One-Punch Man? | tudo que deu errado (e certo) na 2º temporada

By Alana Campanha - dezembro 05, 2019


No mínimo, foi uma temporada que deu o que falar. Me lembro quando em poucos dias o trailer chegou a 10 milhões de visualizações e milhares de dislikes e comentários negativos. Fiquei tão decepcionada e preocupada com o possível fracasso (que poderia significar um cancelamento para mentes mais pessimistas), que procurei pelo trailer oficial lançado no Japão e li os comentários de japoneses. Fiquei em dúvida se a onda de decepção vinha somente de nós, os estrangeiros e se o público japonês, na verdade, não se importava. Acabou que eles se importavam sim.  

Como já foi dito nesta publicação, o trailer nos decepcionou de maneira sem igual, apesar dos problemas de produção serem claros para todos, principalmente no que se refere ao tempo (a falta dele) por conta da pressa dos executivos em lançarem. Todos os problemas já foram discutidos bem aqui.

Enfim, vamos falar da segunda temporada em si.

Passaram-se duas ou três semanas desde que Saitama derrotou Boros, seu mais poderoso adversário e mesmo assim, derrotado com facilidade. Somos introduzidos a diversos novos personagens: King, Fubuki, a irmã de Tatsumaki, Metal Bat, Bang etc.; todos já deram pequenas participações na S1 ou em ovas, mas é agora que terão um papel de verdade na história. Acontece é após os eventos de Saitama vs. Boros, o mundo não teve um segundo de calmaria, pois as aparições de monstros só aumentaram, a ponto da Associação de Heróis não dar conta da demanda. E como não podia deixar de ser, Saitama parece não consciente da gravidade da situação. E para piorar, um autointitulado "caçador de heróis" está a solta, seu nome é Garou e seu objetivo é simplesmente derrotar todos os heróis da Associação, os motivos para isso, obscuros.


Garou é um dos favoritos dos fãs e agora, do público geral. Seu background simplório de "sou mau porque sim" ou "sou mau porque a sociedade" ao mesmo tempo dá um charme maniqueísta a um candidato de anti-herói que nunca tenta realmente ser um anti-herói. Em outros palavras, às vezes é legal só ver um vilão que é vilão de verdade, sem dar milhares de desculpas ou motivos a cada fala. Ele quer derrotar heróis, pura e simplesmente. Mesmo que seu passado seja ligado a bullying e ao fato de seus bullies gostassem de heróis, então ele em consequência quis ser vilão para ser diferente deles, não é uma backstory que ele necessariamente usa como justificativa para suas ações. Garou se considera um monstro (mais tarde, será citado como "monstro humano", "human monster Garou") e seu desejo é ser um monstro de verdade. A segunda temporada o segue como protagonista, bem mais que o próprio Saitama. Saitama é jogado para escanteio para que o vilão seja o verdadeiro protagonista. 

A narrativa segue Garou como seguiria um herói. Todos os clichês narrativos em que heróis são tratados (desvantagem nas lutas, derrotas, a necessidade de ser mais forte, a persistência de continuar lutando mesmo ferido etc.) são colocados em Garou, o vilão. Isso dá um estranhamento, pois vimos Garou espancar heróis e ferir o amado Ciclista e pouco a pouco, episódio a episódio, ele toma as rédeas da história e as convenções narrativas de heróis passam a ser aplicadas ao vilão Garou. Quando muitos heróis se juntam para derrotá-lo e ele está ferido, sem chance de vitória, é a típica cena em que o herói se encontra em desvantagem numérica e precisa se superar; e de repente, ficamos num beco sem saída e torcemos por ele, muito mais do que pelos heróis. Garou nos ganhou.


E é interessante ver que, como Saitama não segue essas convenções narrativas de heróis, então agora temos o vilão Garou para tê-las. E o time comic atinge seu ápice na primeira vez que eles se encontram, sem saber quem é o outro, e tudo termina num golpe. Já perdi a conta de quantas vezes reassisti a cena, tão perfeita e engraçada como no mangá. Na verdade, todos os encontros de Saitama e Garou são extremamente engraçados, pelo menos, antes da luta final entre eles (que ainda será adaptada no mangá). Ou seja, ONE continua sendo um escritor de comédia magistral.

De qualquer maneira, se essa temporada merece ser assistida, é por conta de Garou. Queira ou não, em maior parte, o estúdio fez jus ao personagem. A não ser por um episódio ou momentos específicos, dá pra sentir que a maioria da grana foi investida nas cenas de Garou, a animação de suas lutas, a coreografia, artwork, trilha sonora etc.; e a tal trilha sonora do personagem também é um espetáculo, daquelas que é impossível você não se conectar imediatamente ao personagem ou arrepiar, nem que seja um pouquinho. Sou muito fã de trilhas sonoras marcantes e esta certamente virou uma das minhas favoritas. Apesar de tudo, a segunda temporada merece sim assistida e Garou é a maior prova disso. Mas por que o "apesar de tudo"?

Não dá pra negar os muitos problemas, e é por causa deles que se um remake fosse feito, eu não reclamaria, mesmo que a 3º temporada demorasse ainda mais. Obviamente a temporada não será refeita e essa mancha ficará no anime ainda por muito tempo, somente uma 3º brilhante para apagar a controvérsia. Os erros podem ser divididos em dois: animação e ritmo. 

A saída do diretor que fez a primeira temporada foi o maior responsável pela queda, junto da falta de tempo, como já foi falado aqui. Mas o que realmente isso ocasionou na prática? Primeiro, a perda de fluidez na animação e a perda da consistência no design de personagens, dentre outros fatores. A primeira temporada foi produzida totalmente utilizando a chamada "sakuga animation", que são cenas produzidas com qualidade superior ao resto do mesmo anime, One Punch Man sendo um dos poucos que se usaram a técnica em praticamente toda a sua duração. Claro que com a troca de direção e estúdio isso não pode ser repetido. Nem de longe. A animação parece engessada, as cenas de ação do primeiro episódio, vergonhosas. Vemos Genos saltar de maneira estranha, dura, numa caixa d'água; noutra, a câmera se move num desenho parado de Genos para fingir movimentação. Noutra, não há nem mesmo a tentativa de simular movimento, Saitama pula do prédio com sua imagem parada só sendo arrastada para frente, o que se repete no segundo episódio, onde Sonic tem sua imagem parada também arrastada num giro. 



Sonic perdeu toda a desenvoltura bem animada e a delicadeza em suas lutas. Genos ganhou uma armadura em 3D que fica mais terrível cada vez que você olha. Fubuki, a irmã complexada de Tatsumaki, ganha uma animação que não investe em suas habilidades pirotécnicas, seus peitos se movendo é a pouca coisa realmente fluida em sua batalha. É curioso como esta luta, tal como em quase todas as outras, temos luzes, poeira e fumaça acrescentada nas cenas ação como que para escondê-las. Isso claramente serviu para aparar falhas de animação e dar a sensação de que existe mais movimentação do que realmente há, e claro, passar mais tempo de tela sem produzir animações mais complexas que tomariam o tempo que os animadores não tinham.

Essa tentativa de economia se arrasta em quase todos os episódios. No terceiro, um dos melhores da nova temporada (junto do emocionante episódio de Suiryu), temos lutas espetaculares, porém, que só deixam essas falhas dos próximos episódios mais aparentes. A aguardada Garou vs Metal Bat começa com vinte segundos muito bem produzidos, que depois viram uma sequência mal arranjada de desenhos quase parados em fundos vermelhos. A construção da personalidade de Garou acontece escondida atrás da luta mal feita. Erro que é "consertado/esquecido" durante o espetáculo que é Garou contra os heróis quase no fim da temporada. 

Saitama também sofre. Seu design é uma montanha-russa na segunda temporada: sua cabeça tem vários tamanhos dependendo da cena, o perfil mal desenhado. Ele ganha um tom rosado/alaranjado esquisito, e mesmo tendo poucos movimentos por ser apático, os poucos que tem, são feitos de maneira mecânica como se não fossem importante. Talvez a única cena com ele com investimento maior foi seu fatídico encontro com Garou, mais por causa de Garou do que por Saitama. Genos, como já comentado, anda a torto e a direito com sua armadura 3D e tentamos fingir que não está feio, e mesmo quando olhamos em seu rosto, seus novos traços mais afiados, queixo e nariz diferentes só nos lembram que estamos vendo uma versão piorada de Genos. 


Entretanto, não é só de animação ruim que se faz uma má temporada. O tempo certamente foi um inimigo, e tentar compilar capítulos de mangá demais em poucos episódios também. O roteiro se preocupa com cenas inéditas do Ciclista e sua confiança em Saitama, o que foi um acerto, mas se perde em tentar comprimir tantos capítulos. A invasão dos monstros nas cidades é feita de maneira tão rápida através de um único episódio que eu fiquei confusa no porquê a direção não tentou dar um jeito. Em mangá a coisa fica mais tranquila porque as publicações são esparsas, mas o anime é uma mídia diferente, certas situação precisam adaptadas, cortadas, redistribuídas. Comprimir capítulos lançados e produzidos através de meses em poucos minutos não foi a melhor das ideias. E se o roteiro segue majoritariamente bem, até porque é de ONE, a direção não o trata como deveria. A sacada cômica do "poder" de King e seu ataque é perdida; a dramaticidade ocasional parece não existir. Não temos nenhum trabalho de composição da trilha ou ângulos de câmera na conversa entre Saitama e King, quando vemos Saitama falar livremente do que claramente pode ser considerada uma depressão. A conversa flui com um bom texto, mas sem os toques artístico-dramáticos que a primeira temporada compôs tão bem. 

E se a revelação no final da primeira temporada arrepia, quando Boros diz afirma que Saitama era forte demais, o final da segunda não dá a mesma emoção. Claro, é sempre épico vê-lo derrotando criaturas poderosas, mas certamente, não foi a mesma coisa. O soco final parece ter sido redesenhado a partir do soco contra a explosão planetária de Boros de tão parecido, porém sem o charme. Para ser justa, repetir as sensações da batalha Saitama vs Boros é quase impossível e a Centopeia Anciã nem deveria ter sido o fim da temporada, pelo andamento da história, pois no mangá, o arco da Associação dos Monstros não acabou. O estúdio só não teve muita escolha. 


Sabemos que Saitama ressente não poder encontrar um inimigo à altura, e após ele derrotar Boros com facilidade, o suposto ser mais poderoso do universo, é como se Saitama soubesse que jamais encontraria alguém, não havendo mais um objetivo em sua vida. Sua depressão aumenta, parece mais apático que nunca, até sua voz está diversos graus mais morta do que antes, o que obviamente não é um problema, mas junto dos problemas da temporada, dá um certo tempero de desânimo durante os episódios. Você vê heróis aleatórios mal animados lutando contra monstros e depois vê Saitama sem ânimo para nada. A qualidade da ação no mangá contrasta com a apatia de Saitama, mas no anime, tudo parece sem empolgação em grande parte. Garou é realmente a chama que move tudo. 

Não era financeiramente válido esperar anos até que o direto da primeira temporada ou o arco da Associação de Monstros estivessem prontos. A força da marca One Punch Man sobreviveria mais anos sem uma nova temporada, mas os executivos não pensaram assim. A pressa em animar tudo tão rapidamente e não se preocupar com a estrutura mangá-anime ascendeu mais uma vez um alerta sobre o abuso contra animadores no Japão e seu excessiva carga-horária, totalmente desumana. Por que o planejamento dessa segunda temporada demorou tanto e a produção foi feita em tão pouco tempo? Se quanto mais tempo, menos os animadores ficariam expostos a uma agenda de trabalho quase impossível e mais probabilidade de sair um bom anime, por que optaram pela pior saída? Dinheiro. Nenhum deles se preocupa com a saúde dos funcionários ou em produzir arte. Não é rentável esperar tanto tempo. A indústria abusiva dos animadores japoneses vai muito além de uma temporada mal produzida de One Punch Man, e infelizmente, as muitas manchetes sobre o problema por conta da segunda temporada não parece ter surgido qualquer efeito. Como quase tudo na vida, o vilão da segunda temporada e dos animadores é a ganância.  

E o que esperar da terceira temporada? Não se sabe se um novo estúdio cuidará disso, ou terá mais episódios que o normal só para antecipar a luta final de Garou vs. Saitama. Há uma torcida imensa para que p estúdio Bones fique com os direitos, o mesmo de Mob Psycho 100 também escrito por ONE e com animação de dar inveja. Se ainda continuar na JC Staff, mesmo que a agenda de produção seja mais elástica, o backlash dos fãs e público em geral possa ser forte demais, principalmente com ONE e Murata visivelmente descontentes. Até lá, ler o mangá e reassistir as cenas com Garou é uma opção melhor do que aumentar a expectativa para a terceira temporada. 



 

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