A produção de Klaus, uma obra-prima natalina em 2D

By Alana Campanha - julho 01, 2020


Isto é um artigo realizado a partir de uma entrevista feita pelo site Polygon sobre o filme de animação Klaus. A animação é uma obra de arte disponível na Netflix e que recomendo imensamente!


Em novembro de 2019, a Netflix estreou Klaus, esperado filme de animação natalino. Diferente dos grandes estúdios como Pixar, Dreamworks ou Disney, a película se destaca pelo uso da animação 2D ao mesmo tempo em que exibe sua arte 2D de maneira não tradicional: a incorporação de técnicas 3D em animação feita à mão, como luz volumétrica, comum em trabalhos CGI, e mapeamento de textura. Ambos somente utilizados em animações 3D, aqui emprega um aspecto novo e diferente na arte 2D. Unindo a alegria dos traços feito à mão de Klaus com a tecnologia 3D, a animação virou um sucesso de público e crítica e foi indicado como Melhor Animação no Oscar de 2020.

A história segue Jesper, um homem egoísta mandado para uma ilha para ser o carteiro da região. Logo, descobre que a cidade tem habitantes zangados que não gostam um dos outros e que por conta disso, não enviam cartas. Ao conhecer Klaus, um senhor triste que vive sozinho na floresta, inventa um sistema no qual as crianças enviam cartas para Klaus e ele lhes entrega presentes. 

O site Polygon conseguiu uma entrevista exclusiva com Sergio Pablos, o diretor. Diferentemente das adaptações tradicionais sobre o bom velhinho, as explicações em Klaus não tem origem mágicas. Não há renas voando ou duendes, por exemplo. Ele revela que isso foi a parte mais interessante do projeto, que era a ironia da situação.


“Eu amo histórias que tem um pouco de cinismo para começar, mas que levam inesperadamente a uma verdade honesta. Adorei a ideia de remover a magia dos trechos sobre as origens do Papai Noel e dizer, bem, o quão divertido seria se todas as coisas que você espera lá porque são mágicas, na verdade, são baseadas na realidade, de alguma forma, uma história de origem cínica que leva a certa verdade. Sempre digo que sempre encontro a ironia. Essas ideias flutuaram por aí esperando por um ângulo até eu dizer e se o que for bom do Papai Noel veio das ações do pior ser humano que pudesse conceber. Isso seria interessante. A ironia é algo que eu sempre procuro.” 

O diretor explica que o protagonista inicialmente seria um limpador de chaminés pobre, até perceber que ele devia ser uma pessoa egoísta que precisa aprender uma lição sobre altruísmo. Assim, o pobre limpador de chaminés foi substituído por Jesper, o homem obrigado a ser carteiro e moralmente repreensível. Tendo as cartas como seu objetivo egoísta e fazendo-as ser um golpe na cidade toda só para alcançá-lo, são elas que movem a história para a frente. Este caráter reprovável de Jesper foi necessário para suas ações egoístas se transformassem em ações altruístas. 


O arco de personagem de Jesper é essencial para a mensagem de empatia e altruísmo embebido na história, arco de personagem que se reflete também na cidade de Smeerenburg. A região que sobrevive em conflitos e brigas dentre duas famílias rivais, com a reaproximação das crianças por conta da alegria gerada pelas cartas, começam a se enxergar como pessoas. E na verdade, Smeerenburg realmente existiu, Pablos descobriu a região após pesquisar por povoados no extremo norte e acabou a encontrando. Localizada próximo à Escandinávia e Noruega, hoje ela não existe e no lugar, só há um monte de pedras e persiste nas lendas da cultura escandinava.

Assim como o povoado de Smeerenburg, a tribo dos Sámi também foi resultado das pesquisas de pré-produção. Na persistência de apresentar os elementos clássicos do Papai Noel, como as renas, chaminés, sacos de brinquedos, ainda faltava um importantíssimo elemento da lenda: os elfos. Mas como manter a lenda dentro da realidade e ainda ser fiel aos ajudantes do bom velhinho? A resposta veio na tribo dos Sámi. Indo na linha de “a bondade é contagiante”, após Margu, a garotinha Sámi, receber o brinquedo de Noel, ela retorna com seu povo para ajudar Jesper e Noel com a manufatura dos brinquedos. Manu, tal como seu povo, não fala a língua inglesa, sua voz foi dublada por Neda, uma norueguesa de Tromsø. Isso foi importante, pois além de mostrar a cooperação entre diferentes culturas, mostra o desenvolvimento da amizade de Jesper e Margu que vai além das palavras.


Pablos começou a carreira na área de desenho à mão, mas passou a trabalhar em filmes com CG, no momento em que a indústria evoluía. Mas conforme conta o diretor, ele nunca deixou de fato o desenho à mão, só esperava por uma chance de encontrar o filme certo com o suporte necessário para produzi-lo. Sempre que tinha uma ideia, ele a desenvolvia numa storyline e pensava na melhor mídia em que a história se encaixaria melhor, às vezes, CGI, outras, em live action. E existem as vezes que o diretor percebe que a mídia perfeita é o 2D, como foi o caso de Klaus. 

Quando se decide produzir um filme em 2D, Pablos admite, as chances de vender a ideia despencam. Por isso, foi necessário consciência do que a equipe enfrentaria e os desafios, mas Klaus, afirma o diretor, foi o momento certo. O comprometimento do diretor em realmente levar a ideia adiante em 2D é cada vez mais raro na indústria de animação mainstream na América do Norte. Estúdios de animação não querem correr riscos quando se trata de estilo ou técnica. Há riscos somente em estilos narrativos, mas a indústria norte-americana caiu numa versão padronizada de CGI e não precisa ser assim. Homem-aranha no Aranhaverso é excelente e tenta algo novo, o que é cada vez mais raro quando o CGI padronizado é mais fácil. É perceptível que Klaus se insere no que a animação deixou de lado. O diretor explica:

“Isso não é inteiramente verdade, pois o 2D está vivo e muito bem na Europa e no Japão. [...] Há filmes fantásticos sendo lançados, todos os eles. E precisamos deles. Nós precisamos dessas produções de criadores independentes, mas não houve nenhum apelo ocidental mainstream para animações 2D em muito tempo. É isso que quero dizer. Porque filmes como Uma viagem ao mundo das fadas (Secret Kells) ou Long way North ou A tartaruga vermelha (The Red Turtle) são filmes incríveis e eu os amo. Nós precisamos desses filmes, mas tem um limite de alcance de audiência. Eles alcançam somente um público especializado. [...] Então como volta com o 2D de qualidade na linha de frente, essa é a questão. Klaus parece uma boa oportunidade para fazer isso. ”


Pablos também estava consciente da tentativa da Disney de voltar com filmes em 2D com o lançamento de A Princesa e o Sapo em 2009. A arrecadação de $207 milhões sobre um investimento de $105 milhões, foi o suficiente para a Disney desistir de vez do 2D. Entretanto, Pablos afirma que tal tentativa foi somente um forte apelo à nostalgia e não uma tentativa de fazer algo novo. A empreitada os machucou a longo prazo e é melhor que estúdios não cometam o mesmo erro. Assim, a produção de Klaus tinha o objetivo de tentar algo novo, para não cair onde a Disney fracassou. 

“Então nós dissemos, okay, vamos ver o que é intrínseco à animação 2D e quais elementos não são realmente escolhas, mas limitações técnicas. Me comprometi a derrubar algumas das limitações técnicas o tanto quanto podíamos. Porque nós tínhamos uma nova tecnologia que não ainda não tínhamos tentado usar no 2D, então resolvi tentar e ver o que acontecia."




"O objetivo era manter tudo de maravilhoso do 2D, mas substituir o que não era necessariamente uma escolha, mas uma limitação. Então seria a sensação de algo antigo, mas de algum jeito, novo. Nunca houve tentativa de fazer o 2D parecer mais com o 3D. Nunca houve a tentativa. A intenção foi fazer uma arte de desenvolvimento visual que você poderia encontrar em um livro de arte para filmes animados, mas indo diretamente para o lançamento sem ser moído pelo visual padronizado.” 

O diretor se mentém positivo de que a popularização dos serviços de streaming vão ajudar muitas outros animações e possibilitar que diversos trabalhos que antes não seriam vistos e nem investidos por grandes corporações tradicionais, agora poderão receber luz verde. Klaus pode ser o início de uma fase nova e sensacional para a animação 2D em mundo até então dominado pela Disney e conglomerados.


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