Meus 2 centavos sobre O Sangue do Olimpo.

By Alana Campanha - setembro 28, 2020

 


Sim, estou uns cinco anos atrasada com a resenha deste, mas vida que segue. Lembro-me da época do lançamento, como praticamente todo mundo da blogosfera ansiava pela conclusão da saga divina greco-romana de Rick sem defeitos Riordan. Não era só a conclusão de Heróis do Olimpo, parecia a conclusão de toda a supersaga de deuses gregos que se iniciara na primeira saga, Percy Jackson e os Olimpianos (claro que hoje, a linha do tempo e universo continuam em novos livros, mas não sabíamos disso na época). E qual foi minha surpresa por ver comentários criticando o livro? Até mesmo uma amiga não parecia feliz quando perguntei cheia de esperança se o livro era bom. Bem, a vida aconteceu e anos depois, aqui estou finalmente com o livro lido.

Resumindo o que eu achei: se eu tivesse lido na época, teria odiado. Hoje, aceito mais certas coisas que sei que os fãs detestam, meus problemas foram mais para outros pontos. Mas sem enrolar tanto, o livro é sobre o quê?

Para aqueles que caíram de paraquedas, esta é a conclusão da saga Heróis do Olimpo, continuação da saga Percy Jackson e os Olimpianos (sim, sagas que continuam sagas e que são continuadas por outras sagas com outras mitologias). Em O Sangue do Olimpo, acompanhamos os tripulantes do Argo II viajando até Atenas onde esperam derrotar o mais perigoso inimigo: Gaia, a Mãe Terra. Prestes a ser despertada pelo Gigantes, a tripulação dos sete precisa encontrar uma maneira de derrotá-la. Longe dali, acompanhamos também Nico, Reyna e Hedge atravessando o mundo para o Acampamento Meio-Sangue, levando consigo a Atenas Parthenos, o único jeito de impedirem que o Acampamento Júpiter dos romanos ataque os gregos e inicie a guerra.  

Parece interessante, não é? Bem, infelizmente para mim, o livro peca num ponto que eu acho super importante em livro de fantasia, ação e riordiano como esse: muitas vezes, ele é chato. Não tenho outra maneira de dizer isso. E durante a leitura, me surpreendi por achar isso. Tentei pensar em várias desculpas e não se elas estão certas. Não leio isso desde a adolescência, mas tenho vívidas lembranças de ter achado todos os livros muito bons na época, o único que não achei tão maravilhoso foi A Casa de Hades, mas mesmo assim. Não é questão de ter me cansado de Rick Riordan, não faz muito tempo que comecei a saga Magnus Chase e apesar de ter uma coisinha aqui outra ali, eu adorei. Então deve ser O Sangue do Olimpo mesmo. 

Eu amo Rick Riordan, amo o universo que se iniciou em Percy Jackson. Diferente da maioria, não cresci com Harry Potter, foi com Percy Jackson, nunca me importei muito com qual casa estaria (mesmo que seja Corvinal), o quentinho no coração era em imaginar meu chalé e pai ou mãe olimpianos (sempre foi Apolo). Por isso me dói saber que o livro conclusão não é só fraco, como o pior da supersaga.

Vamos por partes.

A História

Para a esmagadora maioria, o maior problema de O Sangue do Olimpo é a escolha de POVs. Também acho isso um problema, mas para mim, é a história  a verdadeira culpada. História, Storytelling, sabe, os acontecimentos, premissa. Eu sinto que o Rick simplesmente não teve tempo de concatenar a história do livro, os acontecimentos e estrutura, pensou "preciso pegar esses dez personagens e terminar" e já foi logo escrevendo. E isso é complicado. Você pode ter ideias novas enquanto escreve, claro, mas se a cada momento você tiver uma grande nova ideia, sua edição pode se transformar numa reescrita completa e um livro diferente. Mas Rick não teve tempo tempo de estruturar melhor e certamente, não teve tempo de "escrever um livro diferente." Isso só são digressões, não sei o que se passou de verdade na cabeça dele. 

Todos os livros de Heróis do Olimpo tratam do despertar de Gaia. Cada um tem um história própria, sim, mas o arco geral construído desde o primeiro, é que Gaia vai despertar e quando isso acontecer, a humanidade, deuses, semideuses serão destruídos. Gaia é uma entidade, tanto por natureza quanto por sua presença ao longo dos livros sem estar presente de fato. É a atmosfera. Temos a construção do temor que Gaia provoca muito bem colocada no segundo livro, O Filho de Netuno, onde observamos Percy ser atacado e quase morrer quando é sugado por terra; a partir daí, começa a ficar paranoico que Gaia vai sufocá-lo e começa até mesmo a temer a água e duvidar que consiga respirar nela, mesmo sendo filho de Poseidon. O medo de todos os personagens com Gaia é crescente a cada livro, temos novos personagens com aqueles que já conhecemos da saga anterior batendo a cabeça de como Gaia será derrotada, sempre com a desesperança de que não será possível. A missão é sempre evitar que ela acorde.

Somente no fim do terceiro livro, A Marca de Atena, temos um vislumbre do que fazer para pelo menos impedir a guerra dos acampamentos. Então, durante o quarto, A Casa de Hades, o plano é mais sólido e completamente jogado para os personagens não principais, o que é justo. Pior do que a guerra entre os gregos e romanos, é o despertar de Gaia. Mas no último livro, nós não temos um plano. Na verdade, em nenhum dos cinco livros os semideuses sequer traçaram algum plano para impedir o despertar ou derrotar Gaia. É sempre a aventura e profecia da vez, que pode ou não ter uma ligação direta com o arco principal. Nos dois primeiros livros, é aceitável. Os heróis ainda estão sendo apresentados e postos à essa realidade. Em A Marca de Atena os dois grupos de semideuses, os sete, se conhecem, a animosidade entre acampamentos é plantada e Annabeth parte em missão em nome de sua mãe. Então nós temos A Casa de Hades que apesar de ser um livro muito competente e emocionante, também só acrescenta mais problemas sem o menor vislumbre de soluções para deter Gaia. 

Então temos O Sangue do Olimpo. E é mais um livro em que os sete tentam impedir o despertar de Gaia sem nenhum plano aparente. Quatro livros (e anos) mais tarde, os heróis ainda estão na estaca zero do mesmo problema. É mais um livro em que eles viajam pelo navio voador Argo II sem destino pela Europa em aventuras side quest porque a aventura principal, a de impedir o despertar e derrotar Gaia, ninguém sabe como resolver. E é frustrante. Pior são as decisões deles. Para o despertar de Gaia, os Gigantes precisam do sangue de um desses semideuses em dez dias em Atenas, e sim, os sete sabem disso; mesmo assim, é para lá, onde os vilões querem que eles estejam no dia, que eles estão indo. "Gaia quer nosso sangue, então vamos lá." Sinceramente, não sei se esqueci alguma coisa dos últimos livros porque isso não me parece prudente. Mesmo se eles quisessem estar lá para tentar derrotá-la em batalha, ela é Gaia, a terra, literalmente, está em todos os lugares ao mesmo tempo, não seria necessário ir até Atenas. E se fosse para impedir que ela acordasse, é só não levar o sangue dos semideuses até lá, porque somente de duas pessoas dos sete daria certo. 

Talvez a coisa toda seria simples se algum deus vaporizasse todos os sete. Sem sangue, sem Gaia, mas claro, é necessário seguir a profecia que os sete precisam derrotá-la. Não temos ninguém planejando como impedir, o que fazer, desde a primeira página até o sangue, de fato, cair na terra, os semideuses estão confusos sem saber o que fazer para impedir. É como assistir Guerra Infinita em que ao invés dos heróis bolarem planos e mais planos e se esforçarem ao máximo para impedir a aniquilação de Thanos, eles preferissem fazer aventuras side quest cujo maior impacto na trama é saber o endereço da aniquilação. 

Temos quase a metade do livro dedicada à procura da "cura do médico", cujo único objetivo é dar spoiler do final e em consequência, retirar o possível impacto dele. A busca pela deusa da vitória também parece sem importância, pois dela só se origina a "cura do médico", que nem deveria ser apresentada, pois estraga o final, e acaba nem mudando nada. O fato dos semideuses conseguirem sequestrá-la e mantê-la em cativeiro no navio tem impacto zero na trama. Em resumo, a maior parte dos capítulos parecem extras sem importância e isso não pode acontecer num livro de encerramento.

E nada ajuda que também acompanhamos Reyna, Nico e Hedge levando a Atenas Parthenos para o Acampamento Meio-sangue. Nós não sabemos como isso vai impedir a guerra e depois de quase 200 páginas deles levando a estátua, o fato da estátua aparentemente não ajudar em nada, é no mínimo, decepcionante. Se um grito de guerra era o bastante para juntar gregos e romanos, por que todo o trabalho? 

E se no último volume da saga, é normal e ansiado que os heróis lutem contra o grande vilão final, como já devem ter percebido, não acontece aqui. Não é um livro sobre a grande guerra contra Gaia, pois ela só aparece nas páginas finais. Como disse antes, é mais um livro impedindo o despertar sem que ninguém saiba como fazê-lo. Mais uma vez: imagine um Guerra Infinita em que além de não haver ninguém tentando saber como derrotar Thanos, ele só aparecesse no final. Sem caracterização, sem arco, sem desenvolvimento, só um vilão genérico derrotado em cinco minutos.

Ou seja, além de Gaia aparecer só final, também é derrotada com a facilidade de um monstro da semana. Nos capítulos quase finais, em que temos toda a preparação de guerra e o surgimento de Gaia, na verdade teria sido o momento propício para se iniciar o livro, pois a partir deles, toda a batalha poderia ser desenvolvida deletando no processo a maioria dos muitos capítulos inúteis até então. 

Os POVS

A escolha dos pontos de vista não ajudou o livro, ainda mais uma conclusão. Quase a metade da obra são de povs de Reyna e Nico. É o problema mais óbvio. E não levem a mal, Nico é provavelmente um dos meus personagens favoritos de Riordan, bem ao lado de Percy, e acho sim que boa parte de seus capítulos poderiam ser mantidos, mas não há o que justifique os de Reyna. O que é uma pena, pois essa parte, Reyna e Nico, é a parte mais bem escrita daqui. Infelizmente, não se sustenta num livro de encerramento que tinha tanta coisa para tratar. Rick tentou desenvolver Reyna e apesar de conseguir, custou páginas que poderiam ser dos sete. Era preciso um ponto de vista da Parthenos e só alguns capítulos com Nico eram necessários, somente a cena dele com seu pai Hades já valeu a pena. O erro nessa escolha de povs está mais relacionado ao fato deles não terem serventia num livro final e ocuparem espaço do que pela qualidade deles. Claro, muita coisa em Reyna já foi vista em O Mar de Monstros, então a sensação de tédio e repetição acontecem.

Outra crítica que ouvi de muitas é a falta de capítulos para Percy e Annabeth. Entendo as críticas, mas achei legal o foco fora deles. Como Rick diz, Percy e Annabeth já tiveram uma saga só deles, é natural que outros personagens recebam o spotlight. Rick não tratou como um final para Percy Jackson e os Olimpianos, o que pode ter sido um erro de cálculo, mas para o que ele pretendia, um final para Heróis do Olimpo, é natural o foco no trio que iniciou tudo. Mas aí os problemas também aparecem. Se o foco era nos personagens de Heróis de Olimpo, por que não temos capítulos com Hazel e Frank? Eles praticamente não aparecem aqui. Piora saber que o espaço ocupado pela Atenas Parthenos poderia ter sido de Hazel e Frank.

Os personagens

Jason e Piper nunca foram os favoritos, nem de longe. Piper é a filha de Afrodite que não gosta ser filha de Afrodite e não gosta dos irmãos, ela é "diferente" dos irmãos mesquinhos que só pensam em beleza; ao mesmo tempo em que ela é filha de ator milionário, vive numa mansão, é filha de deusa e tem beleza descomunal e poderes hipnóticos. Apesar desses problemas de gente rica, Rick tenta desenvolver a personagem ao longo dos livros, o que poderia ter sido melhor sucedido se não houvesse a forçação de um romance dela com Jason, o personagem mais sem personalidade dos sete. Jason não tem nada que te faz odiá-lo, ele é íntegro, teve seus sofrimentos, é poderoso, honrado etc. Mas é... chato. Sem carisma, não tem personalidade. Então imagine: o perfeito herói poderoso mais a perfeita filha de Afrodite. Pensando nisso, Rick tenta melhorar de vez Piper aqui, e funciona até certo ponto. Ela treina, fica mais forte, faz amizade com Annabeth, aceita melhor sua mãe e seus dons. Mas é uma evolução tão rápida que chega a ser inacreditável. 

Percy e Annabeth tem pouca participação. Não só isso como sofrem uma diminuição de habilidade absoluta em prol de Jason e Piper. Como já disse, Piper e Jason estão longe de serem os favoritos, por isso, acho que Rick tentou consertar agora fazendo-os parecer mais legais e poderosos. Para isso, Piper salva Annabeth e Jason salva Percy. Nenhum problema, mas para isso, ele transformou Percy e Annabeth em idiotas. Percy é literalmente derrotado dentro do mar! Ele e Annabeth acabaram virando reféns dos gigantes com muita facilidade, mas por causa do POV, é pelos olhos de Piper que vemos isso. E o distanciamento proposital de Percy e Annabeth retira qualquer tom dramático que o retorno deles do Tártaro poderia ter. E Percy, que ficara desaparecido por seis meses, não tem nenhum reencontro mostrado. O Acampamento inteiro o procurou e no final, não tivemos uma cena dele voltando e encontrando as pessoas de novo, nada de Grover e nem sua mãe Sally.

Hazel e Frank nem tem do que comentar, pois praticamente mal aparecem no livro. Temos Frank encontrando sua família, o que poderia ser uma baita cena, mas adivinha, o capítulo é pelos olhos de Piper, então basicamente ficamos com ela esperando numa rocha ao invés de estar com Frank. 

Leo sempre foi o favorito dos novos personagens e até o meu, mas desde que conheceu Calipso, me desencantei um pouco. Aqui, todos os pensamentos giram em torno dela, o que fica irritante logo de cara, a própria voz interior dele parece ter mudado, o que era engraçada, divertida e pensava em sua dor, agora é basicamente só ansiosa para encontrar a mulher e namorá-la. Infelizmente, boa parte de Leo aparece na procura pela "cura do médico", então não há muito o que se aproveite de melhora na trama.

O Final


No final, não temos guerras. Não há guerra entre acampamentos, pois bastou um grito mais bruto e uns monstros para uni-los, não há guerra contra a Gaia, pois todo mundo estava ocupado demais derrotando os monstros, não houve uma luta contra Gaia além de umas duas páginas. Não houve sacrifícios. Aparentemente, Piper é uma deusa, pois conseguiu usar seu charme hipnótico contra Gaia para adormecê-la de novo. Bastou isso e uma bomba para matar o ser mais poderoso do universo. Sim.

Valeu a Pena?


É complicado.

Heróis do Olimpo foi publicado num espaço de cinco anos, mais do que um investimento de dinheiro, é um investimento de tempo e afeição. Muita coisa acontece em cinco anos. Você deixa de ser o adolescente que lê tudo e vira o adulto com olhos um pouquinho mais críticos e talvez esse seja uma das razões para tantos fãs terem odiado esse livro. Porque apesar de termos jurado para nós mesmos que Heróis do Olimpo fosse mais maduro que Percy Jackson e os Olimpianos, não há muito para onde correr. Personagens mais velhos não fazem um livro ser maduro, referências mínimas de sangue também não. 

Ao lado de tantos defeitos, o humor infantilizado só torna as coisas piores. O humor foi bem mais polido em A Casa de Hades, que conseguiu unir o humor característico com os sofrimentos de Percy e Annabeth. Aqui, não. Não dá para levar a sério. Isso pode ser um problema da expectativa dos fãs, mas esse argumento não vale para Sangue do Olimpo. Poderia até valer para o Último Olimpiano, porém não mais. Rick Riordan tem o direito de escrever para pré-adolescentes o quanto ele quiser, não é errado. Mas não dá para fingir que uma criança de onze anos, o suposto público-alvo, vai comprar e ler este livro. Não. Quem vai ler este livro é aquela pessoa que já leu Percy Jackson e os Olimpianos, provavelmente na infância, depois, passou a adolescência lendo Heróis do Olimpo. Entre o O Ladrão de Raios e O Sangue do Olimpo, passou praticamente dez anos. E O Sangue do Olimpo é justamente para quem já leu Percy Jackson e os Olimpianos. Ou seja: há incompatibilidade de público. 

Quem está lendo não é a criança de doze anos de hoje, é a pessoa que tinha doze anos antes e agora está frustrado porque o livro ainda é escrito para as crianças que elas não são mais. Você não pode escrever duas séries de livros durante dez anos achando que as crianças que leram o primeiro não vão crescer até chegar ao último. São dez anos. E se não fosse para o público envelhecer lendo, Rick teria escrito livros únicos em seguida, não continuações e continuações. Sinto que Rick está confuso quanto ao público dele, não sei. Principalmente pois na verdade, Heróis do Olimpo também tem continuação. A próxima saga se chama Provações de Apolo e só falta o quinto livro ser publicado. E detalhe: Provações de Apolo foi escrito junto com O Sangue do Olimpo, ou seja, até mesmo Rick queria acabar logo com o livro e focar em outras coisas. 

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