Pai

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O sino badalou sete vezes naquela manhã, sem que a pequena procissão tivesse consciência disso. Junto dela eu velava meu filho, duro, livido, exposto e ornado por flores baratas; sei que daqui a pouco o padre falará maravilhas de um bendito paraíso no qual festejam os mortos.

Caminhamos por pedrinhas e mato; o pequeno caixão podia ser erguido por dois homens, o corpo dentro dele mais leve que seu invólucro.

Não segurei o caixão. Minhas mãos tremiam e minha garganta estava seca, felizmente, não houve insistência dos outros: eu era só um pai que havia perdido o filho.

Carol me abraçava forte, como há muito tempo não fazia. Seu rosto escondia-se no vão do meu pescoço, tentando fugi daquela realidade extremamente dolorosa para ela.

Lembro-me de que nós não planejamos ele. Quando Carol disse que precisava falar comigo, eu nunca imaginaria o que queria me dizer. Ela estava muito feliz, como nunca estivera antes. Nem quando a pedi em casamento.

Um filho.

Você deve imaginar que fiquei feliz, mas a minha cabeça era um grande vazio. Filho era uma palavra estranha para mim. Quando éramos só eu e a Carol estávamos bem. Então ela ofereceu aquela novidade para mim e estava tão contente que eu apenas sorri.

Não sei exatamente quando começou. Por muito tempo, era a indiferença o que me ligava ao bebê. Enquanto os olhos de Carol reluziam a cada consulta, a cada vez que suas mãos macias passeavam por um barriga ainda reta, eu continuava resguardando em não sentir. Porem, a barriga crescia e com ela, minha indiferença dava lugar a algo sórdido.

Não odiei o bebê, muito menos Carol. Meu amor por ela permanecia intacto, senão maior. Meu mundo ainda se resumia a ela. Mas agora, não éramos só nós. Os das se arrastavam e com eles a minha sensatez. Entre nós, eu e ela, a coisa crescia e os sorrisos e brilho de Carol não eram mais para mim e sim para ele.

O amor dela esvaia para seu útero, e o meu só me abafava por completo. A cada respiração, cada pensamento, Carol estava aqui, mas a coisa crescia, e Carol tinha um semblante de felicidade. Tudo, meu corpo e minha alma, eram de Carol E tudo que dizia respeito a ela, passou a ser sobre ele. A indiferença se perdeu no meio o caminho e dela surgiu o ressentimento. 

Éramos felizes, Carol e eu. Éramos o mundo um do outro, até que o bebê se tornou o mundo dela. O ressentimento morreu e dele surgiu a repulsa.

O bebê nasceu saudável. E se Carol ainda tinha resquícios da mulher que eu amara, depois do parto ela se transformara. Beijava a testa do bebê com a mesma ternura com que eu o tocaria até quebrar-lhe os ossos. 

Eu não o odiava. Só queria que ele não existisse. Eu e ela éramos o suficiente.

No dia em que ele morreu, eu e a Carol estávamos brigados. Apenas dois dias atrás, mas parece uma eternidade. Ela colocou ele na cama para dormir com ela e me mandou dormir no sofá. Naquela noite ele não chorou nenhuma vez exceto... Bom, ele resmungou durante a noite e fui dar uma olhada para evitar que a Carol acordasse com o choro. Ela o tinha colocado no meu lado da cama, o lado da parede. Acendi o abajur. Quando a fraca claridade invadiu o quarto, ele me encarou. Aqueles olhos gigantes tão iguais aos meus, mas muito mais amados, me fitaram. Como se eu o tivesse provocado de alguma forma, ele forma, ele soltou um grito agudo que precedeu seu choro. De forma bem desajeitada tentei pegá-lo sem acordar a Carol. As pontas dos meus dedos seguraram o corpo macio. Levantei abruptamente e ele escapou de minhas mãos, rolando rápido e chocando-se contra a parede num baque surdo.

Silêncio.

Afastei-me rápido da cama, assustado. Os olhos grandes vidrados em mim, mas não se mexiam. Minhas mãos úmidas escorregaram pelo interruptor do abajur, e deixei o quarto antes que pudesse entender tudo. Carol ainda dormia.

Voltei para o sofá sem conseguir dormir. Saí cedo para o trabalho e foi lá que recebi a ligação de Carol. Um mal-súbito e fatal, era o que os médicos achavam.

O sermão do padre me trouxe de volta ao presente. Suas palavras sobre Deus querer as crianças para si e que meu filho era um anjo puro me fizeram ver as mãos divinas em tudo isso. Deus ama as crianças e pegou a minha para si. Todas as partes saem ganhando.

- Eu te amo - Sussurrei para Carol.

- Também te amo. Você é tudo que eu tenho. - Ela chorou.

- ai ficar tudo bem. - A tranquilizei.

Eu tomaria cuidado para que não viessem outros.

Nota de uma das autoras: Esse conto foi escrito por mim, a Alana e nossa amiga Cami em um trabalho na faculdade, inspirado em Machado de Assis. Imagem retirada do link https://goo.gl/aEuKW9

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