O desastre de Sherlock é culpa dos fãs?

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E agora?


Todos sabem que Sherlock foi criticado em sua péssima quarta temporada. Martin Freeman agora resolveu falar e segundo ele, a pressão (dos fãs) ajudou na reputação problemática que a série conquistou. Vi muita gente xingando o homem, até mesmo gente que outrora era obcecada pelo cara. Então, aqui vão algumas considerações que ninguém pediu.


Em primeiro lugar, é arrogante culpar os fãs. Deve ser complicado trabalhar em uma temporada com tanta pressão da mídia, fãs e crítica especializada — afinal, ninguém consegue esquecer o patamar que a série conquistou com as duas primeiras temporadas — mas além de ter orçamento, o público já se acostumou há muito o tempo de demora da série. Ou, ao menos, uma boa parte dele. Talvez ano a mais de planejamento fizesse bem à série, e uma revisão de roteiro mais acertada. Mas aqui, vamos nos voltar aos fãs, já que Martin soltou a deixa.


Lá pelo início das gravações da quarta — e última? — temporada, Martin e Moffat reclamaram do Setlock. Setlock são os fãs da série que vão nas gravações e ficam de longe vendo o que tá rolando, às vezes acampam, tiram fotos, gravam, tentam chamar a atenção dos atores e produtores. Na época das gravações da quarta temporada, sobre este fenômeno, Martin disse que “não amava”. Antes disso, em 2014, Mark Gatiss, também showrunner, disse que o Setlock “mudou a maneira como a série é filmada”, o que causou uma redução de cenas em locações e áreas abertas e mais cenas em estúdio.


“Primeiro que [Setlock] mostra demais, o que é ruim, mas também prejudica a concentração, é difícil quando você se sente observado por mais que só o elenco”. Disse Mark Gatiss, ao comentar sobre como fica interpretação dos atores.


Entretanto, o fenômeno de Setlock não é novo, a segunda temporada teve suas filmagens profundamente divulgadas na mídia e redes sociais durante suas filmagens, o que fez com que diversas cenas falsas fossem filmadas para despistar o público sedento. E a segunda temporada é considerada o ponto alto série, a mais bem elogiada. Se o Setlock não atrapalhou a 2ª temporada, o que, de fato, pode ter prejudicado a 4ª?


Se estamos de fãs, temos de falar de Johnlock (John+Sherlock, como um casal)


Desde que li a entrevista, senti que Martin também estava se referindo a isso, sem ter coragem de tocar no assunto. A pressão de se juntar um casal gay na série de detetive mais famosa da TV em um mundo ainda expressamente averso à homossexualidadepode pode ser grande demais para ser concretizada. E foi. Não que Moffat e Gatiss tivessem algum dia considerado a possibilidade.


Em 2016, depois da Comic Con de San Diego para divulgar o teaser da quarta temporada que ainda não fora ao ar, Gatiss respondeu quando perguntado se Johnlock seria canon: 


“Nós dissemos com todas as letras que não vai acontecer — não tem plano nenhum — não importa o tanto que mentimos sobre outras coisas, esta série não vai acabar com Martin Freeman e Benedict indo de mãos dadas em direção ao pôr-do-sol!”


Já Moffat, soltou o verbo de maneira um pouco mais enraivecida:


“É enfurecedor pra dizer a verdade, você está falando de um tema sério e logo aparece um no Twitter pra dizer ‘Oh, então significa que Sherlock é gay’. Absolutamente não significa isso. Nós estamos falando de uma coisa séria e trivializando isso além do bom senso. ”


Tenho grande irritação em produtores falarem mal de casais gays que os fãs gostariam que existisse, principalmente — o que é o caso de Sherlock — por eles não falarem com o mesmo desdém de casais héteros que também não existem na série. Mas é inegável a pressão em fazer Johnlock canon e na época da produção e divulgação da quarta temporada, em todos os cantos existia essa exigência. Basicamente, deveria acontecer ou eles seriam considerados vilões por esses fãs.







Minha impressão é de que essa obrigatoriedade e “militância” dessa base de fãs fez com que Moffat e Gatiss desistissem de fazer o que vinham fazendo com John e Sherlock — um relacionamento de afeto, de amizade, emocionante, que nos fazia acreditar que um era a pessoa mais importante que o outro havia conhecido — acabou. De amor incondicional, Moffat e Gatiss fizeram deles colegas que mal se dirigem a palavra em The Six Thatchers, que em The Lying Detective John espanca Sherlock sem misericórdia e não parece se importar com o seu possível suicídio no episódio final The Final Problem. 


É como se o relacionamento até então, fosse destruído só para diminuir as teorias da conspiração a respeito de Johnlock e eles pudessem dizer com honestidade que não havia escrito John e Sherlock daquele jeito. E diminuir cenas de afeto entre os dois não foi uma coisa nova. Na terceira temporada, um abraço deles foi cortado. Agora, como a quarta temporada seria a última (provavelmente) e a pressão desses fãs para que John e Sherlock ficassem juntos estava muito grande, esfriar a relação e produzir poucas cenas deles juntos foi a saída para Moffat e Gatiss responderem.


O problema? 


A série Sherlock não é somente sobre Sherlock Holmes. É sobre Sherlock e John Watson. A humanidade de Sherlock se desenvolve a partir da relação com John, evoluindo ao ponto do detetive dar valor às suas amizades e fingir sua morte por John Watson. Uma série que tem como foco emocional uma relação, não pode desistir dela se quiser se manter fiel a si mesma. Desistir de Sherlock e John por medo de teorias de fãs é vergonhoso. É um insulto a tudo o que foi construído até então. Um John que ficou de luto por dois anos pela morte de Sherlock, que entrou em depressão, que teve de voltar à terapia, não iria quase assassiná-lo, não ficaria de boa com a possibilidade dele se matando.


Com três episódios, o arco dramático da 1ª, 2ª e 3ª temporada sobre Sherlock lidando com John Watson sendo seu ponto de pressão, foi ignorado. O pior? No cena final, os dois voltam a morar juntos e a resolver casos, além de terem a bebê Rosamund para criar. Cena linda, mas desastrosa, pois não imagino os dois fazendo aquilo depois do tratamento tão frio que ficou a relação deles. Não dá pra acreditar no John da quarta temporada morando com Sherlock e ainda por cima, criando a filha dele.


Talvez a pressão dos fãs moldou algumas decisões de Moffat e Gatiss. Entretanto, não saber lidar com exigências e destruir o que foi construído até então por medo, é por conta deles mesmo. Game of Thrones está aí, uma série de alcance global e cada temporada nasce de uma pressão EXTREMA dos fãs e críticos, e apresentada temporadas maravilhosas. Nela, a pressão é de todos os lados.


Sherlock? A excelência dela foi deixada de lado por covardia. Erros técnicos e de roteiro, sim, mas principalmente por ignorar a alma da série e dos livros: o detetive Sherlock Holmes e seu amigo ajudante John Watson. Tudo isso por terem se ligado que estava “gay demais” e desistiram do que era uma das relações mais belas e emocionantes das telas. Tudo para provar um ponto.


Moffat e Gatiss foram os verdadeiros culpados pelo eterno desastre da quarta temporada. E, francamente, alguém tinha alguma dúvida? 





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