A mistura de fantasia e sedução em A Forma da água

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Título: A forma da água
Autores: Guilherme Del Toro, Daniel Kraus
Página: 352
Editora: Intrinseca

A história de A forma da água se inicia na missão de Richard Strickland de capturar o deus Brânquia, criatura aquática e misteriosa tida como deus nas terras da Amazônia. O objetivo de Strickland é cumprir essa missão e se ver livre das dívidas obscuras que tem com um superior do exército americano. A criatura é capturada e levada para um centro de pesquisas conhecido como OCCAM. E é neste lugar que Elisa Esposito, uma servente que não consegue falar, vê sua vida desinteressante e de invisibilidade ganhar outros significados através do deus Brânquia. Se para Richard, a criatura tem que ser morta e dissecada, para Elisa, trata-se um ser supremo que deve ser salvo - e descobrir qual dos dois obterá êxito em seu objetivo construirá o suspense da trama. 

Eu li A forma da água em dois dias! Não só porque a história era boa - e ela é, viu gente -, mas também porque ele seria o livro discutido no Clube do Livro de março.  O Clube foi hoje e eu amei estar na Paraler e discutir essa história tão singular. Não vi o filme, então saiba de antemão que todas as minhas impressões se baseiam unicamente no livro. 

A história por si só traz um problema complexo, afinal, logo nos primeiros capítulos a criatura é capturada, e quem pegou qualquer spoiler, sabe que essa mesma criatura tem uma história romântica com a Elisa. Aliás, esse foi um dos pontos que mais me despertou curiosidade. Mas tenhamos foco, sim? Elisa descobre a criatura e vê nela alguém como ela própria: sem voz, sem importância (aos olhos dos outros) e singular. Elisa por ser muda, pobre, uma servente sem importância da Occam e o deus Brânquia por ser apenas um objeto de estudo mantido em cárcere privado, subjugado e apenas aguardando a morte. 

No decorrer da história, notamos muitas coisas. Por exemplo, a criatura não é exatamente como um animal. Ela é uma forma de vida inteligente e consegue se comunicar com a Elisa - seja através do pouco que ela ensina para o deus Brânquia da língua de sinais, seja através da capacidade que ele tem de demonstrar com as cores da água como se sente.   

Um ponto que o pessoal do Clube colocou é que no filme o Strickland parece só um cara muito sacana e do mal, entretanto, no livro, fica claro que ele é uma pessoa totalmente abalada psicologicamente. A todo momento ele faca que ouve os macacos gritando e todos os capítulos que estão no ponto de vista dele são claramente a representação de uma mente perturbada. No livro tem uma ilustração em que Strickland aparece com macacos em seu ombro, e parece dominado por eles. Sabe como aquelas imagens do anjinho e o demônio no ombro sussurrando o que você deve fazer? Tipo isso. 

https://goo.gl/eLZrwr
Uma personagem que me surpreendeu bastante foi a Lainie. O primeiro contato que o leitor tem com ela é através dos olhos de Richard, e quando finalmente podemos ler capítulos sob o ponto de vista dela, temos uma percepção sobre ela muito mais rica. Ela é uma mulher incrível.

Se eu tivesse lido o livro sem nenhuma informação adicional, além do próprio texto eu acharia que era um a história do período do Naturalismo. Algo a la O cortiço. A natureza, a vida e o sexo são apresentados de forma nua e crua. Você lê o livro e pode sentir o gosto da água, o gosto do ovo, pode ver as cores do deus Brânquia. e a água está presente em toda a narrativa, simbolicamente, representando a vida - assim como o ovo. 

Super spoiler logo abaixo. 

Por sua conta e risco

No fim, descobrimos que a Elisa é como a criatura. As cicatrizes que ela traz em seu pescoço são, na verdade guelras. Achei interessante o autor colocar isso apenas no final, porque a ideia que passa é que a criatura e a mulher são coisas diferentes durante toda a história, mas o amor as torna iguais. Uma mensagem de que todas as pessoas são iguais. Só amei. 

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