Touca de banho

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Quando eu era criança, meus pais sempre brigavam. Meu pai era alcoólatra e todas as noites em que bebia, várias coisas apareciam quebradas no dia seguinte. Portas, janelas, louças e partes visíveis e invisíveis da minha mãe. Mas toda vez que ele chegava assim, minha mãe perguntava se eu queria escutar a chuva. Eu sempre fazia que sim, porque eu também tinha medo.

Os minutos que meu pai cambaleante demorava para chegar do portão até a sala eram os mesmos que minha mãe usava para colocar uma touca de banho na minha cabeça, tomando o cuidado de que minhas orelhas estivessem cobertas pelo plástico da touca. Ela era rápida. Em pouco tempo eu estava embaixo do chuveiro, completamente vestida, ouvindo o barulhinho da chuva. A porta do banheiro era trancada e às vezes eu passava horas até que minha mãe destrancasse a porta e se juntasse ao meu banho. 

Então ela tirava minha roupa, lavava todo o meu corpo e falava sobre o quanto eu era boa, ou sobre o quanto eu estava crescida. Sobre o quanto eu era linda e o quanto ela me amava. Havia ali um contrato silencioso. Ela cuidava de mim e me protegia porque não podia fazer o mesmo por ela mesma. E eu sorria e acariciava seu rosto, ignorando as marcas roxas e a água do chuveiro que rolava pelas nossas faces. Duas almas quebradas se consolando enquanto uma terceira ressoava na cama, no quarto ao lado, calma e bêbada demais para se importar com os outros. 

Na maioria do tempo, me sentia uma covarde. Pensava que poderia não ficar na chuva, que poderia fazer alguma coisa diferente. Porém, eu nunca recusei ouvir a chuva.

Muitas tardes, na casa da minha avó, eu assistia aos filmes que passavam na TV. Ocasionalmente algum personagem morria, e eu tentava absorver cada detalhe de tudo. Naqueles filmes antigos, parecia que todo mundo morria fosse deixado pendurado de cabeça para baixo. Ou eram homens maus condenados a guilhotinas. Eu não sabia nada sobre condenar homens maus a guilhotinas, mas sabia que meu pai era um homem mau. 

Eu tinha 11 anos no dia em que minha mãe não teve tempo de me por para ouvir a chuva. Ela disse "Vai, vai!" e colocou a chave na minha mão. Nossa casa era comprida, e todos os cômodos davam para o corredor. A sala era o primeiro, em seguida a cozinha. Nesse cômodo parei, observando uma faca tentadora que minha mãe usava para desossar frango. 

Sabe, em momentos de tensão, pensamos e fazemos coisas que não fazemos em dias normais. Então, me pareceu bem sensato pegar a faca e sair correndo para o banheiro. Eu fechei a porta e liguei o chuveiro, mas tinha uma coisa muito, muito errada em ouvir a chuva naquele momento. Eu estava com medo, mas cada dia minha mãe estava mais machucada, e eu ficava com medo de um dia ela não abrir mais a porta do banheiro para mim.

Sai da chuva.

Podia ouvir as coisas sendo jogadas, e minha mãe tentando acalmar ele. Lá na sala ainda. O quarto deles era o próximo cômodo para mim, e eu entrei e me escondi embaixo da cama.

Rezei para não ser tarde demais. Rezei para que ele parasse logo, para que ela entrasse no banheiro e me procurasse. Para que eu tivesse força por mim e por ela. 

Hoje, aos 27 anos, toda a vez que tomo banho e uso uma touca, puxo ela e cubro as orelhas, mas nunca mais a chuva teve o mesmo som. Creio que seja porque algumas coisas marcam tanto a nossa vida, que fazem uma tatuagem no nosso cérebro. Um cheiro, um som, uma sensação. E é bem verdade também que o sangue que jorra de uma jugular é muito mais espesso do que água e quando bate na touca de banho soa muito melhor do que chuva. 

Soa como liberdade.

Fonte da imagem: https://goo.gl/QB3QLd

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