Baseado em Fatos Reais | Resenha

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Título (original): D’après une histoire vraie
Autora: Delphine de Vigan
Editora: Intrínseca
Páginas: 294

Sinopse: Após o grande sucesso de seu último livro, em que revelava perturbadores segredos familiares, Delphine se vê diante da temível pergunta: o que vem depois de um texto tão pessoal, que comove tantos leitores? A inércia. O sucesso a fragiliza a tal ponto que a deixa completamente vulnerável. Ela não consegue mais escrever nem uma linha, nem sequer se sentar diante do computador ou segurar uma caneta. Está esgotada, e vive assombrada pela pressão da próxima obra.
Tomada pelo bloqueio criativo, o sentimento de impotência e isolamento permeiam constantemente sua vida: os filhos gêmeos, Louise e Paul, estão prestes a sair de casa para seguir o próprio caminho e ingressar na universidade. Além disso, seu namorado, François, é um famoso jornalista e apresentador de um programa de crítica literária e está sempre viajando para o exterior. A instabilidade emocional de Delphine ainda é agravada pelas cartas de teor bastante violento que recebe de um remetente anônimo, ameaçando-a por ter exposto publicamente sua família.
Nesse cenário de fragilidade, Delphine conhece L., uma mulher sofisticada, confiante, feminina, carismática e atraente. Tudo o que ela sempre desejou ser. L. parece ter um passado misterioso, trabalha como ghost-writer, e entra de modo insidioso na vida da escritora, que vê na amizade uma forma de superar seu bloqueio criativo. L. é a amiga perfeita, sempre disponível, e logo passa a interferir nos aspectos mais íntimos da vida de Delphine. O domínio de uma sobre a outra é inesperado. A conexão entre elas parece... inacreditável.
...
É tênue a linha entre a realidade e ficção. Interessante como utilizamos despreocupadamente o termo ficção pura, mas ouvimos realidade pura com certo grau de desconfiança. A realidade pura é a verdade ou a ela torna-se ficção de acordo com o enunciador? Um livro baseado em fatos reais pode ser uma realidade pura ou ela já se tornou ficção com a mera escolha de palavras? É nesse espaço entre a ficção e a realidade que a obra Baseado em Fatos Reais se constrói.

Delphine é uma autora que escreveu um livro baseado em uma história real, ou melhor, sua história. O livro alcançou estrondoso sucesso e ela se tornou uma autora tão popular quanto influente. Entretanto, após a publicação e o estoura de sua vida pessoal diante de um público faminto, Delphine perde completamente a vontade de escrever. Acoplada por um terrível bloqueio criativo, ela chega a desenvolver uma repulsa por escrever, mal conseguindo nem mesmo anotar ou sentar à mesa do computador. Na situação delicada de ser a autora que todos esperam por mais livros dos quais ela não consegue escrever, ela ainda lida com a saída dos filhos de casa. A depressão parece ser a única companhia em sua casa.
É aí que ela conhece L., uma mulher bela, sofisticada e misteriosa, e imediatamente vira o fascínio de Delphine. L. representa tudo o que a escritora quer ser e tudo o que ela admira. Não demora muito para que elas formem um laço de amizade que, pouco a pouco, se intensifica a ponto de se tornar obsessivo. Ao mesmo tempo em que L. tenta ajudá-la para que seu segundo livro seja escrito e ela vença seu bloqueio criativo, Delphine recebe cartas anônimas e raivosa de um familiar que não gostou da vida da família tornar-se um livro famoso.
Nessa luta para escrever, numa depressão e envolvida na misteriosa L é que Baseado em Fatos Reais se desenvolve. A obra é literalmente escrita pela personagem, ou seja, é em primeira pessoa e o leitor acompanha em primeira mão a angústia da personagem em vários  aspectos. A falta dos filhos, a vaziez de sentido, o namorado em constantes viagens, a expectativa do público e editores para seu próximo livro, vemos todos os seus sentimentos caóticos serem deslindados em palavras dolorosas de uma vida apagada.
O romance francês me lembrou muito de Precisamos Falar sobre Kevin, pois em ambos vemos uma linguagem em fluxo de consciência, completamente mergulhada nas profundezas mentais e sentimentais das personagens, principalmente em suas angústias. Delphine está sofrendo mais do que uma simples crise, ela está desabando e somente L. parece saber o estado em que ela se encontra. E sendo a única pessoa a ajudá-la, a ouvi-la, a realmente vê-la, Delphine compartilha segredos com ela, compartilha suas verdades, sua dor.
Mas, mais do que tudo, L. continua sendo a perfeição em mulher. Adorável, articulada, linda, ela é uma ghost writer (é paga para escrever livros encomendados que não levam seu nome), e parece ter prazer em ajudar a amiga. É disposta a querer que Delphine escreva seu segundo livro também baseado em histórias reais, pois o público quer a verdade, querem a vida de Delphine novamente e anseiam por isso. L. passa a se entranhar na vida íntima de Delphine, a ponto de ser difícil separá-las.
A relação das duas tem um forte subtexto homoerótico, e mais ainda, um jogo de existencialismo entre falta de sentido, angústia, e autoconhecimento em indivíduos; até onde a realidade termina e começa a ficção, ou a própria desconfiança de existir uma realidade pura. As duas travam diálogos encorpados que se constroem em questões filosóficas, extremamente literários, diálogos muitas vezes longos, que às vezes parecem discursos. As duas travam diálogos que, próximo à Jane Austen, parecem malabarismo verbal.
Enquanto elas conversam numa dança de ideias, o relacionamento delas se aprofunda, ao ponto de Delphine ter sintomas próximos de um transtorno de ansiedade de dependência. E além de acompanharmos a crise interna de Delphine, acompanhamentos a admiração, e, às vezes, o horror e a paranóia que ela sente por L.; L é uma personagem de inúmeras facetas. Vemos sua docilidade e força, vemos suas falas inflamadas, ou reconfortantes, e pela visão de Delphine, nos aprofundamos em sua psiquê, na ilusão de Delphine de querer conhecer sua mente e coração.
É um livro que eu recomendo para todos os amantes de uma literatura intimista, psicológica temperada com suspense. E mais do que tudo, recomendo para todos os escritores ou para quem quer se iniciar na carreira. Toda a reflexão e medo de Delphine em relação à escrita e à ficção é primorosa; toda a dor e discussão a respeito do tema é muito verossímil, até porque a autora de Baseado em Fatos Reais passou por uma situação semelhante. Delphine (o mesmo nome da personagem) também escreveu um livro sobre sua história real e acabou em fama, o que a deixou em dificuldade em escrever novamente.
O livro já está sendo adaptado ao cinema, e espero que faça juz à obra. L. é interpretada por Eva Green, e Delphine por Emmanuelle Seigner. A adaptação é dirigida pelo renomado Roman Polanski.




*Curiosidade: A expressão “baseado em fatos reais” é redundante, pois “fatos” já significa algo real. No entanto, na resenha, resolvi utilizar a expressão “baseado em fatos reais” mesmo, por ser mais comumente utilizada.

         

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