Qual foi o erro da Netflix em Death Note?

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Qual foi o erro do filme afinal de contas?
O filme original Netflix de Death Note está sendo detonado por fãs e crítica especializada, mas afinal de contas, o que aconteceu? O mangá e anime foi um sucesso e público e crítica, aquele caso fascinante de uma ficção com premissa e discussão inteligente que se torna popular. Feito de premissa e personagens que seria um prato cheio para um filme de altíssima qualidade, Death Note parece amaldiçoado por originar filmes esquecíveis.
Mas estamos falando da Netflix, que um dia já foi conhecida por produzir material excelente, como House of Cards ou Demolidor. Então, o que aconteceu? Vamos analisar a adaptação polêmica para descobrir, de fato, os problemas que parecem ter condenado o filme.

A “Adaptação”

Em primeiro lugar, Death Note Netflix não é uma adaptação, é uma releitura. Quando um filme ou série se propõe a ser uma adaptação, ela precisa necessariamente seguir o material original, ou, ao menos, tentar se aproximar o máximo possível, porém, logicamente levando em consideração a nova mídia em que a história se passa. Aí temos a maioria dos filmes adaptados de livros, que apesar de terem muitas cenas cortadas e outras acrescentadas, a maioria segue o material original. Temos assim a saga Jogos Vorazes, a Saga Harry Potter, a saga Crepúsculo e por aí vai… Elas não são completas reinvenções do diretor, elas se preocupam principalmente em contar a história em uma nova mídia, com as limitações e possibilidades dessa nova mídia. Ou seja, adaptar numa nova linguagem, respeitando a nova mídia a que se direciona.
Há também alguns filmes que apesar de serem adaptações, eles não admitem a diferença de mídias (nem tudo em um livro ou em um quadrinho fica bom na linguagem cinematográfica), e acabam só passando a mesmíssima história do mesmíssimo jeito para o filme. Por exemplo, Watchmen, o quadrinho renomado de Alan Moore foi adaptado para um filme pelo Zack Snyder, porém, ele foi adaptado quase quadro a quadro, a mesma coisa. Apesar de ser um bom filme, não houve nele a mínima novidade em ver cenas, pois tudo era idêntico à Graphic Novel. A mesma coisa no quadrinho de Guerra Civil que foi adaptado para livro: idêntico demais, sem haver exatamente uma grande preocupação em passar algo para uma nova mídia.
Nesse sentido, Death Note não se encaixa como adaptação. Em releituras, roteiristas/produtores podem dar uma nova roupagem completa, seguindo minimamente a premissa, mas trocando elementos mais complexos. Não sou especialista, mas um bom exemplo de releitura é a série Hannibal (NBC); o criador nunca se propôs a adaptar “fielmente” os livros, tanto que a época em que passa a história são os dias atuais. Personagens foram mantidos, uma premissa que no primeiro livro foi somente citada e a atmosfera criminal, sendo todo o resto a liberdade criativa dos roteiristas numa nova roupagem. Guerra Civil, desse ponto de vista, também é uma releitura do quadrinho, pois a premissa só foi o ponto inicial para uma história diferente. Resumindo, Death Note Netflix é uma releitura, então o que todo fã deve fazer ao assistir ou depois de assistir, antes de gritar que foi o pior lixo da história, é ter em mente que não é a mesma história.
Entretanto, mesmo levando em consideração que se trata de uma releitura, se é uma boa releitura, aí são outros quinhentos.
Então, podemos começar a pensar em alguns pontos que prejudicou o filme, não levando tanto em consideração o quanto o filme é parecido ou não com o mangá/anime. Se não se passa no Japão, se L não é branco e inglês, se Misa não é loira, dentro da premissa, isso não importa. Porém, mesmo só levando em conta o material original só para se partir dele e criar uma nova história, não se pode (ou pelo menos, seria melhor) mudar a essência da obra.   
Em adaptações ruins é a famosa essência que a maioria dos fãs que entendem razoavelmente bem de cinema reclamam da falta, pois colocar os mesmos personagens e a mesma premissa não é suficiente para que se mantenha a essência de uma obra. E nessas chamadas releituras, apesar de todas as diferenças esperadas, a essência precisa ser mantida e falta dessa fidelidade mínima pode condenar. Em nenhuma boa releitura de Guerra Civil, Tony Stark vai descobrir que estava errado o tempo todo e que Steve estava certo em querer a liberdade total de superpoderosos. Em nenhuma boa releitura de Hannibal, ele vai receber a luz e se arrepender de ser um assassino canibal e tentar ser uma pessoa boa.   
Não é só de enredo que se faz uma história, assim, podemos partir do princípio que a fidelidade de personagens é responsável, em grande medida, pela essência da obra.  

Os Personagens

Na obra original, Yagami Light (Raito na pronúncia japonesa) e L são os protagonistas. Na Netflix, Light Turner e Mia são os protagonistas, e L fica num papel bem secundário. Isso por si só, já gera uma diferença absurda e afasta da ideia geral de Death Note, na qual é a batalha mental entre L e Light que move as ações do enredo.  
Pois bem, qual a ideia geral de Light? No material original, Light é o melhor estudante do Japão, extremamente genial. Tem uma família bem estruturada e tem ótima aparência. Ou seja, ele tem tudo e apesar disso, está entediado. Esse ponto inicial nas primeiras páginas e primeiros minutos de anime, muda drasticamente quando ele encontra o Death Note.
Vi muitos criticando o filme pois aparentemente, a Netflix transformou Light em um “nerd” normal (vamos desconsiderar que o conceito de nerd não é alguém focado nos estudos), que faz provas muito bem e sofre Bullying, o “nerd” fracassado do cinema. Entretanto, na obra original, Yagami Light não é simplesmente  um “nerd” ou um CDF. Ele não se enquadra no clichê do cara mergulhado nos livros que quer passar no vestibular. Para todos os efeitos, ele é um “deus”.
A premissa básica de Light é ele sentir-se superior a todos os outros e ser o reflexo de Ryuk, um shinigami (deus da morte). Ambos, deuses a sua própria maneira e entediados. E então, ao encontrar o Death Note, uma arma sobrenatural, Light descobre ter em suas mãos o início da salvação da humanidade. Agora, ele se vê como um verdadeiro deus que destruirá o Mal e será o deus de um novo mundo.
Por conta disso e da discussão de justiça, Death Note e Yagami Light são muito comparados a obra clássica Crime e Castigo do autor russo Dostoiévski, sendo Light comparado a Romanovich Raskolnikov. Ambos se sentem superiores ao resto da humanidade e por isso, justificam seus assassinatos. Com uma visão própria da moralidade e ética, e junto da genialidade, eles compreendem a humanidade como inferior.
Assim, Light como sendo superior, tem o poder de decidir a parte podre da humanidade e exterminá-la.
Na versão da Netflix, Light perde essa principal característica que, além de ser a base psicológica de Light, é objeto que o impulsiona a seguir a narrativa. Aqui, Light é o estereótipo hollywoodiano do protagonista “nerd” e fracassado. Não é superior, tampouco um gênio. Sua inteligência só mostrada em uma cena no início onde ele faz e vende uma prova para outro estudante, nada além disso.
Superioridade e genialidade perdida, a essência do personagem perigosamente perdida. Mas e os objetivos desse novo Light ao usar o Death Note? O extermínio de criminosos para um mundo sem a podridão da humanidade é um ponto central em Yagami Light e precisa sobreviver em todas as versões minimamente decentes do personagem.
Na Netflix, à princípio, Light não está disposto a criar um novo mundo. Em verdade, na primeira morte, é Ryuk quem pede para ele matar alguém como prova dos poderes do caderno. E Light mata o valentão que o agredia na escola e importunava Mia naquele dia. (Mia é a versão de Amane Misa).
Como nesta versão, Light não é inteligente, precisamos compreender que apesar de matar alguém próximo ser arriscado, ele o fez de qualquer maneira. É uma consequência da versão diferente do verdadeiro Light. Mas as diferenças ficam ainda mais perigosas nos objetivos.
Sem a superioridade, sem a genialidade, pelo menos a ideologia permaneceu? O objetivo do novo Light, à princípio, é se vingar do assassino de sua mãe. Sem novo mundo, sem desprezo a criminosos, sem nenhuma pretensão maior que matar por motivos pessoais.
Então, absolutamente nada é parecido com o Yagami Light original!?
É aí que entramos num terreno perigoso, provavelmente a escolha mais arriscada do roteiro. A ideologia de matar criminosos e fazer um mundo melhor, a chave principal da história, não parte de Light, e sim de Mia. Em outras palavras, o Light da Netflix não tem nem mesmo a ideia principal de Death Note. Ele não faz ações, ele só reage a ações de outros.
Sem as principais características de Yagami Light, a escolha do roteiro é fazer Light Turner concordar com a ideia de Mia e os dois começam a matar criminosos.
Se Light Turner não é caracterizado como o Yagami Light, ele ao menos toma decisões racionais? Light, no material original, nunca deixa emoções lhe tomar o controle, de fato, ele possui características psicopatas até bem claras (lembre-se, psicopatia não é doença mental, Light tem suas capacidades cerebrais em uso pleno), assim, todas as decisões se baseiam em não ser descoberto e continuar o extermínio com o Death Note. Entretanto, na versão Netflix, ele se guia quase que em maior parte, pela emoção. Enquanto que Yagami Light quer se manter secreto a todo custo, Light Turner revela o Death Note à garota por quem ele é apaixonado.
O simples fato de Light estar apaixonado por Mia já o afasta completamente do original. Um personagem sem afeto real por outras pessoas (características psicopatas) e sem interesse em atividades sexuais, é no mínimo estranho vê-lo aos amassos com alguém. Mas ao mesmo tempo, quando ele não se parece de fato com o original, em algum momento, as diferenças já nem são tão gritantes em algum momento do filme.
Em resumo, Light Turner não é o Yagami Light. A essência, o que faz Light ser Light, foi modificada de forma tão radical que Turner virou um outro personagem.
Em uma releitura em que o protagonista foi mantido, mas sem nenhuma característica do original, é arriscado por si, pois tecnicamente, personagens tem uma identidade própria e graças a ela, o enredo acontece. Personagens e enredo são elementos inseparáveis em qualquer trabalho de ficção, o modo como eles se entrelaçam podem construir a essência de uma obra e uma modificação impensada e radical de um desses elementos pode destruir a sua essência.  
E Mia? Se “Misa” aqui ganha o protagonismo, sua personalidade também é totalmente modificada. Nesse caso, Amane Misa também era apaixonada por Light, porém, ela provavelmente  sofria de um grave transtorno de dependência, ainda pior que Harley Quinn com o Coringa, acredite. Sua vida era ele. Ela em si, não era uma personagem forte, apesar de gostar de ser o segundo Kira. De fato, o misterioso autor de Death Note admitiu que a inserção de Misa Misa na obra só se deu porque não tinha nenhuma mulher e Misa serviu para dar um “charme feminino” na obra, já que ela é gótica e o estilo meio que combinou com o aspecto geral da obra (estilisticamente falando, pois o desenvolvimento dela é outra história).
Na versão Netflix, Mia é, pasmem, uma garota de torcida. Fria, calculista e praticamente sem expressão facial. Muitas críticas disseram que ela é o verdadeiro Light do filme e tenho que concordar. Ela quer mantê-los em segredo a qualquer custo, ela é a manipuladora, ela é quem realmente quer se livrar de criminosos. Apesar de não ser genial e ter síndrome de deus a altura de Yagami Light, é ela quem mais se aproxima do Light original.
E L? À princípio, L parece mais próximo ao original. É um detetive particular genial, o melhor do mundo e é considerado uma lenda pela polícia, tem gestos excêntricos e é recluso. Mas o roteiro não tem diálogos geniais como no original, e a genialidade de L não é exatamente explorada no filme. Ele simplesmente chega a conclusões. E ele é impulsivo e por conta disso, toma decisões burras e inacreditáveis no filme. Apesar disso, ele é o que mais se aproxima do original, provavelmente porque o fandom o idolatra, mas não é suficiente. Ele não é mais o co-protagonista e a batalha mental entre ele e Light não acontece.
Se tentaram que L ficasse parecido com o original, isso perdeu a importância já que o roteiro ignora a importância de L na premissa e enredo. Ele não parece o obstáculo quase intransponível de Kira. Não há decisões friamente calculadas. Quanto mais o filme avança, menos L ele parece.


A Filosofia  e o Panorama Geral

O panorama (a ideia geral) de uma história é fundamental numa adaptação ou releitura. Se na releitura da BBC de Sherlock o foco é em investigar crimes mundanos, se Sherlock Holmes acabasse enfrentando pessoas com superpoderes, por exemplo, isso iria contra a ideia geral da obra. E na quarta temporada, isso realmente aconteceu! Resultado: O massacre da crítica especializada e audiência. Ou seja, se um diretor propositalmente escolhe mudar completamente personagens, ele pelo menos deve manter a filosofia ou o panorama geral da obra que está reimaginando.
Assim, se os personagens, principalmente Light, foram trocados, então pelo menos a ideia geral da premissa permaneceu? Bem, temos o Death Note, temos um extermínio, temos a polícia tentando desvendar a identidade de Kira… O filme tem todos esses elementos que fazem Death Note ser Death Note.
Mas os produtores decidiram que não. Mantiveram todos esses elementos, claro, mas adicionaram o mais problemático: o romance.
Qual o panorama, a ideia fundamental de Death Note, aquilo que nos faz terminar de ler/assistir e fica pensando por dias a fio? A discussão de justiça. Toda a tendência humana para o Mal, a ética do certo ou errado de se matar alguém moralmente mal, a sociedade moralmente decadente, todo o debate moral sobre o direito à vida de quem quer que seja. Mas no filme, não há margem para a audiência ter a mesma reflexão. O filme não vai fazer ninguém pensar e isso não seria algo ruim se o original também não fizesse isso.
Mas faz. Os dois lados éticos são representados por L e Yagami Light, mas muito mais que defenderem ou não a vida de pessoas, eles defendem a justiça pois nenhum deles acha que está errado. Eles são a justiça e muito além de representarem lados opostos, eles representam que não há lado inocente, independe de qualquer moral. Essa dualidade humana se perde no filme. A discussão da justiça e ética que as ações de L e Light propõem, inexiste. De fato, a luta pela própria ideologia de justiça de Death Note é substituída por um romance adolescente.  
E como muitas vezes, o casal apaixonado matando juntos é o foco (com direito a declaração e beijo na chuva) a produção decidiu fazer mortes violentamente gráficas para fingir ações impactantes para o público, já que o jogo psicológico que era a principal ação do original supostamente não prenderia a atenção do público ocidental. E o que pode prender mais a atenção do que um casal de adolescentes se pegando e, ora ou outra, matando?
Na cena final, o filme prova que a história apaixonada tinha muito mais foco do que deveria ter, pois Light realmente queria ficar com a Mia, sendo ela tão importante para ele quanto o próprio caderno. E apesar do “plot twist” tentar a todo custo recuperar a suposta inteligência de Light num flashback clichê, não adianta. Vi um vídeo muito bom que o cara cara dizia que Death Note Netflix cometeu o mesmo erro que o filme ocidental de Dragon Ball: colocar o protagonista no Ensino Médio e fazer com que o objetivo dele fosse um rabo de saia. O que não funcionou para  nenhum dos dois.
Assim Death Note Netflix tem personagens diferentes. Um foco diferente. Um conceito de paixão adolescente e gore gráfico, não o jogo psicológico-ético. Sem personagens ou a filosofia original (se é que há alguma no filme), porque a releitura não foi completa e não mudaram os nomes dos personagens ou explicaram que não se tratava de fato de Death Note?
Audiência. Death Note foi um sucesso de público e crítica, adorado até por pessoas que tinham preconceito contra animes e quadrinhos orientais. Colocar qualquer outro nome que não Death Note, seria um tiro no próprio pé. Os personagens (os nomes) permaneceram propositalmente, pois mesmo querendo abranger um público novo, eles precisavam do afeto dos fãs para abraçar o projeto de qualquer forma. É muito mais fácil para o Marketing falar de Light e L nas entrevistas do que falar de outros personagens.  Audiência e expectativa são tudo.

Pecado Original
Para mim, o maior erro da Netflix foi ter “mantido” os mesmos personagens. Seria um filme melhor digerido pelos fãs se se tratasse de outros, apesar do filme ter graves problemas técnicos. E claro, o erro de ignorar a filosofia de Death Note em detrimento de clichês de Hollywood. O melhor de dois mundos era, ou respeitar minimamente a ideologia e premissa de cada personagem original e unir ao filme o debate ético e psicológico, ou trazer novos personagens mas mantendo esse conceito de jogo psicológico-ético.
A falta desses dois quesitos foi o erro da Netflix. Acima de tudo, para fãs e críticos, e infeliz e aparentemente, para pessoas que nunca tiveram contato com Death Note, o filme é esquecível.  
E nada relacionado a Death Note tem o direito de ser esquecível.



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