Castlevania e a falta de animações ocidentais para adultos

By Alana Campanha - abril 17, 2020


No início do século XX, as primeiras animações foram criadas para ser uma forma de entretenimento para adultos. Com tendências sexuais, violentas e humor negro, os curtas feitos eram exibidos nos cinemas como escapismo para os adultos das guerras e crises que os assolavam, uma descontração para uma época sem novelas ou jogos de futebol na TV. Mas quando Walt Disney entrou na jogada, as coisas mudaram.
  
Percebeu-se a grande possibilidade das animações serem atrativas para crianças e daí, todo o seu legado se construiu. Desde então, ano após ano, as animações perderam as características adultas e foram ficando mais próximas a um público infantil ou no mínimo, "seguro" para famílias sensíveis. As animações adultas sobreviveram, porém, a grande maioria da produção certamente não leva adultos em conta, mesmo que o público exista. Mas isso não ocorre em toda a indústria mundial. Há um lugar em que adultos conseguem animações feitos para eles. Japão.
Parece que a cada ano que passa, animes são mais vistos ao redor do mundo, e o japão parece que só está percebendo isso agora. As receitas internacionais aumentam e o mercado que sempre foi extremamente regional, precisa se abrir e está fazendo aos poucos, seja por meio de distribuição por streaming e parcerias com estúdios chineses e produção conjunta com estúdios ocidentais. A verdade é só uma: a procura por animes só vai crescer.

Entretanto, por que isso não se reflete na produção de animações no ocidente?

A verdade é que no ocidente, não é só animações adultas que sofrem, mas animações de gêneros diferentes. Mesmo que voltadas ao público infantil ou adolescente, animações de ação, suspense, mistério, romance, ficção-científica estão decaindo; antes, animações de ação eram os favoritos até os anos passarem e os canais substituírem por desenhos de comédia e nada mais, mais curtos que os antecessores e sem enredo. Então se até mesmo crianças que gostariam de ver ação tem poucas opções, imagine nós adultos. 

Castlevania, escrito por Warren Ellis e produzida e distribuída pela Netflix é uma resposta a esse quadro. Sem medo de mostrar violência ou assuntos complexos como fanatismo e perversidade religiosa, a obra parece não ter amarras que as produções ocidentais têm, característica que atraiu muitos fãs de animes. Na verdade, Castlevania começou a aparecer no topo da lista de desenhos adultos para quem gosta de animes, por não levar em conta sensibilidades e também por justamente existir numa realidade onde animação ainda é vista por muito estúdios como "coisa de criança".

Baseado nos games de mesmo nome criada pela Konami, Castlevania segue Trevor Belmont, o último sobrevivente de uma lendária família de caçadores de vampiros. Suas andanças sem objetivo e desistência de caçar, no entanto, está prestes a terminar. A grande premissa da série repousa no infame e poderoso conde Drácula. Quando sua esposa médica é assassinada na fogueira por bruxaria  e satanismo pela igreja católica, ele dá seu ultimato: matar todos os seres humanos. Agora, as noites estão cheias de seus exércitos de demônios e carnificina, dia após o dia, cidade por cidade, a humanidade se aproxima da dizimação total. 

Drácula, longe do vilão maléfico sem personalidade que poderia ter sido, tem profundidade. Mergulhado em luto, a destruição total lhe aparece como única saída da dor, mesmo que morra para consegui-lo. Esse comportamento depressivo praticamente suicida se esconde na imagem que ele mostra a todos, a autoridade máxima do inferno cujas ordens tem o poder de vida e morte. O único capaz de parar a insanidade parece ser seu filho Alucard (literalmente Drácula de trás pra frente), o messias dampiro de cabelos loiros preconizado a matar o próprio pai. Até lá, ele, Trevor e a feiticeira elemental Sypha farão o possível para lutar contra os exércitos e principalmente, matar o conde Drácula.


A violência extrema e a crítica religiosa sustentam a verdade por trás dos personagens: ninguém está a salvo de ter a própria escuridão. É interessante como Castlevania não se desvia de temas complexos e não se sensibiliza por polêmicas. É um bom passo para animações ocidentais adultas e quanto maior a probabilidade dela ajudar a aumentar a demanda para estúdios, melhor. 

E após os conflitos políticos da terceira temporada e a subida de Isaac, o forjador de mortos, como praticamente o melhor personagem, Castlevania foi renovada para a quarta temporada. Nada mal para a série que está lembrando os estúdios que sim, ainda dá para fazer animações de sucesso para adultos no ocidente. As três temporadas estão disponíveis na Netflix.


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