Literatura Fantástica: o que é?

By Alana Campanha - abril 13, 2020


A fantasia é certamente um dos gêneros da ficção mais amados do mundo, se não for o mais. Seja indo ao cinema ver deuses lutando ou indo numa banca e comprando um mangá sobre zumbis, a fantasia existe em todos os formatos de histórias. A Literatura Fantástica foi o meio pelo qual o conceito de tais histórias se materializou e sobreviveu através do tempo, mesmo que a "ficção-fantástica" e "fantasia" tenha surgido pelos contos orais. 

Na verdade, há uma grande confusão quando se fala de "fantasia"; no senso comum, ela é sinônimo de tudo o que envolve contos de fadas, bruxas, deuses ou qualquer criatura mitológica, o que não está distante da verdade. Entretanto, ela não é sinônimo de literatura fantástica, a fantasia nada mais é que um de seus subgêneros. Mas se Literatura Fantástica não é só dragões e elfos, então o que ela é?

Ninfas. Animais falantes e sencientes. Alienígenas invasores. Assassinos imortais. Nada disso existe na vida real e é por isso que se estivessem em alguma história, ela automaticamente seria literatura (e/ou ficção) fantástica. Qualquer elemento que não existe em nosso mundo em uma obra literária ou cinematográfica torna-a "fantástica". 

Assim, a Literatura Fantástica divide-se em três enormes gêneros: a Fantasia, a Ficção-científica e o Terror


Na Fantasia, o mais óbvio, temos as criaturas clássicas europeias como fadas, duendes etc., toda a mitologia pagã e celta que sobreviveu ao cristianismo por meio das ficções escritas, mesmo que os próprios elementos cristãos como anjos, demônios, espíritos e magia também sejam consideradas fantasia quando forem escritos como tal. Porém não só da cultura europeia vive a fantasia, ela abarca todas as formas de mitologia e elementos mágicos e "non sense". A jornada espiritual de Chihiro em A Viagem de Chihiro inspirada no folclore japonês e em conceitos xintoístas é fantasia, tal como os manhwas sobre mundos de cultivo e imortalidade. Senhor dos Anéis, Harry Potter, Percy Jackson, os exemplos de fantasia são vastos.

Já a Ficção-científica se distancia-se muito da fantasia em menor ou maior grau, dependendo do subgênero. É científico por usar elementos advindos de conceitos da ciência e tecnologia, e é ficção por tais elementos ainda não existirem na vida real, ou existirem parcialmente. Se a vida fora da Terra é discutida como certa pela ciência, alienígenas tomando controle não é algo exatamente esperado de acontecer, tal como espaçonaves que atravessam o sistema solar em cinco minutos. Não só do espaço vive a ficção-científica; a ficção especulativa, seu subgênero, é futurista por natureza e traz discussões sociais acima de seus elementos de ciência, como a hipervigilância em 1984 cujo ponto central é o autoritarismo e manipulação, ou a infertilidade causada por danos biológicos por radiação em O Conto da Aia, cuja discussão é na verdade o opressão do estado contra mulheres. Pode ser considerada soft sci-fi se a tecnologia for muito fantasiosa como em Doctor Who, e será hard sci-fi se for próxima à realdade ou se a tecnologia for bem explicada por termos técnicos, como em Eu, Robô.

O Terror, diferente dos outros dois, não tem elementos tão fixos, a única obrigatoriedade para uma história ser deste gênero é causar a sensação de horror em quem está lendo e/ou assistindo. Se não causar, o que ocorre geralmente em obras que só utilizam tropes mais conhecidas de terror sem a preocupação de causar medo, só será considerada um terror ruim. Assim, normalmente são as situações assustadoras e atmosfera inquieta de medo que definirá o terror numa obra, não a presença de fantasmas. A maleabilidade deste gênero facilita sua combinação com a fantasia e com a ficção-científica, tal como ocorre com os fantasmas, espíritos, demônios nos tropes de casas mal-assombradas e alienígenas e horrores do espaço em tropes lovecraftianas.


É comum a combinação entre gêneros, não somente com o terror. É possível até mesmo a combinação entre fantasia e ficção-científica, que em teoria, são opostas, para funcionar, basta baixar a ficção-científica para soft sci-fi, caso contrário, a verossimilhança será afetada. Tal junção é a Fantasia-científica (Science Fantasy). Este subgênero é bem difícil de definir por suas semelhanças com o soft sci-fi (ambas dão pouco valor ao realismo científico e sua importância). A diferença é que a fantasia-científica une isso com elementos fantasiosos em pé de igualdade com os elementos científicos. Podem ser considerados fantasias-científicas Dragon Ball e o Universo DC, ambos retratam alienígenas, androides, robôs, culturas interplanetárias e tecnologia avançada ao mesmo tempo em que apresentam deuses, magia, espíritos e vida após à morte.

Apesar disso, é o Terror o terreno verdadeiramente fértil para os subgêneros vindos de combinações. Sua junção com a fantasia traz o Sobrenatural, neste grupo, é comum os vampiros, lobisomens e bruxaria por um viés mais assustador do que no Romance Sobrenatural (onde o romântico traz criaturas do terror, mas sem a sensação do horror.). A junção do terror com a ficção-científica traz um interessante subgênero chamado Weird Fiction, que se espalhou a partir do horror cósmico de Lovecraft e hoje protagoniza vários contos de Stephen King; seus elementos bizarros ou medo do desconhecido e da imensidão do universo da weird fiction pode ser estendida a muitos filmes de terror do século vinte como Alien ou alguns mangás de Junji Ito.

É por tal liberdade imaginativa que a ficção fantástica conquista as pessoas desde a pré-história. Presenciar o encantamento (fantasia), medo (terror) e possibilidades (ficção-científica) da ficção e literatura fantástica é o que sustenta a adoração humana diante dessas histórias. Somos criaturas de imaginação e é esse desejo por coisas extraordinários e sair um pouco da vida mundana que torna a ficção fantástica tão irresistível. 


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