(In)feliz Páscoa

By Thaw - abril 12, 2020

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Era domingo de Páscoa. Eu detestava Páscoa. 

Eu recebera um ovo da minha mãe, um da minha irmã mais velha que não morava mais com a gente, dois dos meus avós e mais alguns bombons variados. Olhei aquela quantidade absurda de chocolate e me perguntei se seria o suficiente. Não tinha certeza, mas era tudo que eu tinha. 

Próximo das seis da tarde, calcei meus tênis de caminhada, vesti um moletom, conferi se o meu celular estava no bolso, e coloquei um boné. Abri a despensa e procurei uma sacola grande, dessas retornáveis de supermercado. Logo encontrei o que queria. Abri a geladeira e coloquei todos os meus chocolates lá dentro. Achei uma caixa de bombons no fundo que era da minha mãe. Peguei essa também, colocando na sacola. Ela não gostava tanto de chocolate quanto ele.

Fechei a geladeira, porém não antes de rearrumar as coisas de forma que minha mãe não desse logo falta de sua caixa de bombons. 

Caminhei até a porta, sentindo o peso da sacola que eu carregava.

Quase dei um grito de susto quando minha mãe surgiu na minha visão periférica, mãos na cintura em claro sinal de desaprovação.

"Lá vai você comer todos os seus chocolates sozinho e tudo de uma vez. Não sei como você não passa mal no dia seguinte."

"É, é." Respondi meio vago, fechando a porta atrás de mim. O susto de segundos atrás me fazia sentir meu coração pulsando em meus ouvidos. Eu precisava me acalmar.

Respirei fundo e encarei o céu. As cores já iam esmorecendo como fotografia velha, o azul dando lugar para aquela cor doentia antes de ser dominado pela escuridão.

Comecei minha caminhada, passando pela porta de meus vizinhos de cabeça baixa. Não queria que outras crianças me vissem e decidissem me acompanhar. Esses chocolates não podiam ser divididos com ninguém. Após caminhar exatos sete quarteirões, já era possível avistar a entrada para o parque. Aliás, nem sei se parque seria a palavra exata. Tratava-se de um lugar com árvores e alguns bancos colocados por algum morador local. O mato dominava bastante do caminho e isso só mudava quando alguém decidia que talvez seria uma boa ideia cortar ele. 

Quando eu era mais novo, meu pai sempre me levava ali. Antes do dia da Páscoa, vínhamos munidos de nossas enxadas e outras ferramentas, caminhávamos até um local mais profundo daquela mata conhecido de meu pai, e cortávamos o mato para preparar tudo para o coelhinho me trazer ovos de chocolate. Meu pai fazia a maioria do trabalho, pois eu era muito novo. Mas era sucesso. No outro dia, quando voltávamos os dois juntos para ali, sempre havia ovos para serem encontrados e comidos. 

Ao avistar a entrada das árvores, podia quase sentir ele me chamando. Os sons estranhos que só ele poderia fazer. Mas eu segui mesmo assim. Decorei o caminho da última vez em que tive que sair correndo de lá, a última Páscoa com o meu pai. Nunca mais esqueci daquele caminho. Já o refazia há três Páscoas e ele continuava idêntico. Mesmo o morador mais bondoso não tinha muita intenção de ir tão fundo e capinar aquele exato lugar onde eu e meu pai íamos toda Páscoa.

Caminhei mais e mais, o escuro tomando quase totalmente o lugar. Eu precisava ser rápido. Não gostava de ir lá quando estava muito escuro.

Alcancei o lugar correto. Reconheci imediatamente as exatas árvores que deveriam estar ali, a mesma pedra de sempre com aqueles sinais estranhos, e aquela montanha de mato que pareceria apenas um monte descomunal de mato seco amontoado. Um mato seco que estava sempre ali.

"Eu vim, tá?" Falei em voz alta, enquanto mexia na sacola, tentado retirar o primeiro ovo. 

Os dentes afiados arranharam meu braço quando ele abocanhou a sacola com todos os chocolates. Senti o sangue escorrer pelo meu braço. Fui um pouco descuidado.

Encarei de relance aqueles olhos vermelhos dos quais eu nunca me esqueceria, aqueles dentes afiados como facas destruindo saco e chocolates ao mesmo tempo enquanto devorava tudo com ferocidade. A coisa que matou o meu pai em uma tarde de Páscoa três anos atrás.

Ele nunca me atacou. Mas ele atacou o meu pai naquela tarde. Ninguém nunca acreditou em mim. Para todos, meu pai desapareceu e ninguém sabe seu paradeiro. Porém eu sei que o coelho comeu ele porque queria chocolate. Os chocolates que eu e meu pai íamos buscar ali toda Páscoa. E então ele aparece todo ano e eu continuo trazendo chocolate. Vai que ele fica com fome demais e resolve atacar outra pessoa?

Aguardo ele terminar e se embrenhar na montanha de mato. A lua já está brilhante no céu, e acendo a lanterna do celular para sair dali. Em casa, entro direto no banheiro tirando a camiseta rasgada e lavando o sangue antes que minha mãe veja. Ouço ela sair de seu quarto e ir até a cozinha. Ela mexe na geladeira e então sua voz irritada se faz ouvir.

"Você pegou meus chocolates?"

Não respondo.

Detesto Páscoa.

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