A história que não podemos ver

By Thaw - agosto 01, 2022

UFMG

É muito provável que você já tenha ouvido ou lido em algum lugar a seguinte frase: "Seja gentil. Você nunca sabe o que o outro está passando". Soa tão clichê que mais parece o outro dizendo para você engolir desaforos com um sorriso no rosto. Até porque no geral as pessoas vão deixar de ser gentis se se sentirem agredidas de alguma forma 一 pelo menos é assim que pessoas educadas se comportam, né? Enfim, sabe quando acontece alguma coisa e você pensa "Putz! É disso que a tal frase estava falando!". Foi o que senti ao assistir esse vídeo da Auri:


Contextualizando: lembram desse post que falava de categorias do Youtube para relaxar? Eu adicionaria facilmente à lista vídeos de ambientes sendo limpos e organizados. Foi graças a esse gosto estranho que conheci o canal da Aurikatarina. Para você que não fala inglês, ela inicia todos seus vídeos dizendo basicamente "Olá! Eu sou a Aurikatarina e limpo a casa dos meus seguidores de graça" e em seguida, você vai conhecer um ambiente absurdamente sujo e bagunçado e ela vai contando a história de como aquela casa/apartamento chegou àquele ponto. Ela conta tudo com muito carinho, empatia e gentileza e é sempre história de pessoas que entraram em depressão profunda e não foram mais capazes de limpar a própria casa. 

Todas são histórias tristes, mas a desse vídeo em especial, foi muito forte. Vou resumir de maneira bem porca, mas pensem na boa intenção (assistam a Auri contando, bem melhor). É uma mulher que encontra seu amor, eles mantém um relacionamento à distância por um tempo, finalmente conseguem morar juntos, resolvem se casar, o pedido é super romântico, estão morando num apê novo e tem um bebê vindo. Mas a vida dessa mulher vira de cabeça para baixo porque um dia ela vai dormir e acorda com a casa em chamas, tenta sair do local rastejando, uma parte da casa cai em cima dela, ela acorda na ambulância e depois descobre que seu marido morreu e perdeu seu bebê, tudo por causa de uma vela que o marido colocou queimar, e ele pegou no sono e a vela iniciou o incêndio. Hoje, muitos anos depois, essa mulher conheceu outra pessoa, está grávida novamente, refazendo sua vida. Só que eu apenas não consigo conceber esse grau de sofrimento, sabe? A pessoa passar por tudo isso, e conseguir não desistir da vida. E o mais louco de tudo é que se eu estivesse andando na rua e essa pessoa passasse por mim, eu não saberia disso, dessa história doída que ela carrega no peito.

Eu acho que é isso que aquela frase quer dizer. O outro às vezes carrega uma dor tão grande que nem podemos imaginar. Ser gentil não é ser idiota, trouxa. É ser educado, para dizer o mínimo. É olhar para o outro e enxergar que por baixo das camadas e camadas de tudo que vemos no externo, existe uma pessoa, uma história, traumas e sofrimentos que muitas vezes não é do nosso conhecimento. Nós todos somos assim: carregamos dores invisíveis. Então só posso pensar que talvez seja mais humano de minha parte tentar me lembrar disso com mais frequência, e talvez você aí do outro lado da tela ache sensato fazer o mesmo.

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